quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Igreja, política e a questão gay


Mesmo em período eleitoral, a intenção deste blogue não é fazer campanha política. Quando criei este espaço, tinha como meta divulgar o lado mais arejado do cristianismo, indo na contramão do fundamentalismo tão em voga no mundo cristão, principalmente protestante.

Porém, como cristão reformado, não consigo enxergar a fé cristã sem uma relevância social. Não aceito uma religiosidade presa em quatro paredes. Como dizia Jesus, o cristão deve ser sal e luz. Por favor, não me compreendam mal. Quando digo que a igreja cristã deve influenciar a sociedade, não estou propondo uma teocracia, mesmo que sutil. Pessoas que pautam suas vidas em outras crenças,ou até mesmo em nenhuma, não são obrigadas a viver em um estado cujas leis sejam inspiradas diretamente no conteúdo da Bíblia Sagrada. Atitudes condenadas no livro máximo da tradição judaico-cristã dizem respeito apenas aos seguidores da respectiva linha religiosa. Além do mais, acredito ser uma grande tolice usar a Bíblia, ou qualquer outro livro religioso, como manual de normas ou regras prévias e imutáveis. Karl Barth, teólogo calvinista que gosto bastante, já escreveu :" A Sagrada Escritura recusa-se a ser transformada em código de regras;e é errado usá-la como tal”. Fora esta pertinente ponderação,convenhamos ; o que era bom e ético para um hebreu do V século antes de Cristo não pode ser considerado normativo para um brasileiro do século XXI, por exemplo.

Quando defendo a participação política da igreja, apregôo que a mesma se una com todas as pessoas de boa vontade a despeito das eventuais divergências em matéria de fé. Esta união deve girar em torno de causas favoráveis a justiça e solidariedade.



Vou usar um exemplo concreto e bastante polêmico; a questão da união civil de casais homossexuais. Não tenho a pretensão em convencer nenhum cristão conservador de que esta orientação seja natural. Eu mesmo já fui bastante preconceituoso neste quesito. Agora, você que está perdendo seu tempo lendo esse blog, reflita comigo : é correto uma pessoa que construiu toda uma história de vida ao lado de outra ser preterida de direitos elementares pelo simples fato do seu companheiro ser do mesmo sexo ? Creio que não.

Não quero entrar no mérito teológico a respeito da homossexualidade. Respeito profundamente aqueles irmãos que não concordam com a normatividade da prática homossexual. Porém, tal opinião é de foro pessoal, íntimo. Portanto, meu caro irmão conservador, você não é obrigado a aceitar um pastor abertamente homossexual em sua igreja, mas, se for coerente com os ideais de justiça promulgados pelo evangelho, deve lutar para que todo o cidadão, independentemente de sua orientação sexual, tenha seus direitos basilares respeitados.

Assim, tenho por norma que é fundamental o envolvimento político da igreja. Doravante , este envolvimento não deve ter como base a busca de benefícios para a própria instituição eclesiástica ou a imposição para a sociedade como um todo de valores morais que dizem respeito apenas ao próprio grupo religioso. Tal luta deve buscar justiça para toda a criação, compreendendo todos os seres humanos, sejam heterossexuais, bissexuais, gays ou lésbicas.

POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

6 comentários:

  1. Fernando Affonso de André10 de setembro de 2010 17:22

    André,

    Parabéns pelo seu texto e por seu posicionamento sobre esse assunto e outros. Acredito que Cristo não iria aprovar o homossexualismo dos nossos dias, mas com certeza ele iria almoçar com essa galera, iria aceitar convites para trocar idéias, e iria acima de tudo respeitar a humanidade deles, o que dizer dos direitos civis? Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus. Nos evangelhos nós vemos Cristo comendo com os cobradores de impóstos, e se assentando com pecadores. Nós, no entanto, não seguimos o exemplo do mestre. Excluímos milhares de pessoas em nome de nosso cristianismo. Me envergonho do cristianismo, tenho orgulho do Cristo.

    Fernando.

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  2. Texto muito bom. Acredito como você que a igreja deveria ser a primeira em defender o tratamento justo a todos, mas parece terminou aliada das hegemonias conservadoras que usa a intolerância como pretexto de exclusão com base moral.http://marceloramosdemoc.blogspot.com/

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  3. Fernando e Marcelo. Muito obrigado pelos comentários. Como bem lembrou o Fernando, Jesus Cristo, nosso mestre e salvador, sentou-se ao lado de pessoas que estavam à margem da sociedade. Portanto, acredito que ele teria uma postura tolerante diante deste público chamado GLBT.

    Outra coisa; reafirmo, o cristão deve participar, sim, da vida política. A igreja deve ser uma voz profética na sociedade em que vivemos. Não aceito esta postura, muitas vezes influenciada por um laicismo radical, que não é nada mais do que um fundamentalismo ateísta, de querer ocultar a religião ao foro íntimo da pessoa. O erro da participação política da igreja é quando ela é feita egoisticamente, visando o beneficio do próprio umbigo.

    Também é um grande equívoco quando a Igreja usa regras vinculadas claramente a um determinado contexto histórico-social e deseja aplicá-las de uma forma atemporal.Uma leitura apurada e crítica da Bíblia ( PS : Coisa que não existe tanto em fundamentalistas cristãos como eu ateus militantes,que ficam pinçando textos contraditórios da Bíblia para para embasar suas visões reacionárias e preconceituosas. Por sinal, sei que não é a intenção dessa resposta, mas quando vejo uma pessoa atéia divulgando video na web, mostrando várias atrocidades no texto sagrado, pergunto : " Meu Deus, que falta faz um conhecimento do famoso método histórico-crítico".rss)revela o projeto primordial de Deus para com sua criação, a justiça ! Portanto, o cristão não é obrigado a concordar com o comportamento homossexual, mas deve, no mínimo, respeitar esta orientação.

    Para ilustrar essa situação, uso um exemplo simples e quase universal para o povo brasileiro; o futebol ! Acho impossível uma pessoa que realmente entenda de futebol torcer para o Corinthians. É um clube menor, que até o início da década de 90 só tinha conquistado campeonatos regionais. No entanto, respeito a " orientação" corinthiana dessas pessoas. Meu pai, meu irmão, várias amigas e amigos seguem o time do Parque São Jorge. Não quero matá-los por causa disso. Tampouco defendo que os(as) corinthianos(as) sejam tolhidos de seus direitos básicos. Sei que é um exemplo tosco, mas acredito que ajuda um pouco.

    Por fim, sou heterossexual. Gosto de mulheres, no caso, da minha. Assim, acho muito complicado opinar a respeito de um mundo que não é o meu. Não sei o que se passa na mente de um cara gay, de uma menina lésbica ou de uma pessoa bissexual, por exemplo. Não sei nada a respeito de suas dores e angústias. Portanto, como heterossexual, não me julgo no direito de meter pitaco na vida de uma pessoa GLBT.

    Abraços, fiquem com Deus

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  4. Parabéns, caro amigo!

    Concordo contigo em G, N & G!

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  5. De muito bom senso toda a dissertação!
    De facto, este é um tema que sempre me despertou muito interesse,
    por se originar em muitos casos em visões claramente dogmáticas.
    Sou um seguidor de Jesus Cristo, acredito na sua palavra e tenho como maior desejo para a minha vida, amar como ele nos amou a todos. Ora é, este amor incondicional, que me faz crer profundamente que Jesus, enquanto Deus, iria compreender a perversão em que incorre o homossexualismo, sem o aceitar, é claro, como um acto divino.
    Assim, o que mais importa salientar tomando as suas palavras, caro André, é o fabuloso acto de compaixão e não de julgamento que Jesus teria para com esta "opção" de vida.
    Jesus, é o caminho para a felicidade, a verdade e a luz, e não, ao contrário, do que muitos gostam de profetizar um Deus autoritário e castrador. Ele conhece as nossa severas imperfeições e quer o melhor para a nossa vida, e é pois através dele que poderemos viver eternamente.
    PAZ

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  6. Ola galera,
    gostei muito desse tópico gostaria de deixar um link de um grupo que compartilha esse ideal!
    http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=18341429591920861048

    abraços
    Fiquem na paz!

    Davi Nascimento

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