terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Protestantismo em imagens. Luteranismo . Parte I

Há um forte consenso a respeito da pobreza simbólica existente no protestantismo. Tillich já dizia que o elemento simbólico é fundamental para o cultivo da religiosidade. Segundo o teólogo alemão, esta seria a grande fraqueza do protestantismo diante dos outros dois grandes ramos do cristianismo, o catolicismo romano e a ortodoxia oriental. Religião sem símbolo, sem mito, torna-se um mero apanhado de pressupostos dogmáticos. Neste ponto, o pentecostalismo, a despeito de sua iconoclastia, possui uma maior proximidade com o aspecto misterioso e místico da religião, graças a sua conhecida catarse ritualística.

Dentre os três grandes ramos do protestantismo histórico ou magistral, considerando o anglicanismo como parte dessa família, o calvinismo foi o que demonstrou uma maior antipatia para com o simbolismo litúrgico.

Fora do ambiente anabatista, foi a tradição reformada responsável pela solidificação do sentimento iconoclasta predominante durante boa parte da história do protestantismo. São conhecidas as histórias de atos de vandalismo contra igrejas, ocorridos em países de maioria calvinista, como Holanda, Suíça e Escócia. O famoso adágio reformado “quatro paredes e um sermão” tornou-se regra nas jovens igrejas reformadas. Aproveitando a estrutura arquitetônica das esplêndidas igrejas romanas medievais, os calvinistas eliminaram, por completo, imagens, vitrais e até mesmo órgãos de suas igrejas. Segundo um amigo que viajou recentemente à Holanda, uma importante igreja reformada de Amsterdã apresenta todas suas paredes laterais caiadas, devido à virulenta retirada de belas obras de arte sacra em seu recinto interno.

Tal fobia do protestantismo reformado diante da representação física do sagrado é oriunda de um aspecto central de sua doutrina; a absoluta transcendência de Deus. Para Calvino, além do perigo de gerar práticas idólatras, a representação do sagrado, por meio de representações materiais, seria uma afronta à soberania divina. O reformador genebrino ensinava ser completamente impossível um elemento finito representar algo infinito, como Deus.

Partindo de um pensamento oposto, Martinho Lutero acreditava que o finito, de forma limitada, poderia demonstrar algo do Sagrado. Assim, o luteranismo não criou empecilhos para o desenvolvimento da arte sacra em seu meio.

Retornando ao universo reformado. A tendência de aversão à arte sacra, principalmente no seu aspecto iconográfico, foi gradativamente revertida em meados do século 19, como resultado de um despertamento litúrgico ocorrido no seio de várias denominações presbiterianas/reformadas européias e até mesmo estadunidenses. Nos dias atuais, principalmente no hemisfério norte, é comum deparar-se com belas igrejas calvinistas ostentando cruzes tradicionais, célticas e vitrais decorados com cenas bíblicas.

Bem, este texto foi apenas uma pequena introdução a respeito da arte sacra dentro do protestantismo. Já ensaiei escrever sobre este assunto em outro post, onde apresentei minha comunidade eclesial, a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, conhecida como Catedral Evangélica, como modelo de arquitetura gótica dentro do protestantismo paulistano, a despeito de seus vitrais ao melhor espírito puritano, isto é, sem representações físicas.

Acredito que um assunto tão interessante possa ser compreendido não por palavras, mas por imagens. Assim, estarei divulgando fotos de igrejas protestantes ao redor do mundo, majoritariamente localizadas em países onde o protestantismo foi um dos elementos formadores de sua cultura. Para facilitar, estarei dividindo os templos e demais monumentos arquitetônicos de acordo com sua respectiva tradição. Para começo de conversa, vamos viajar pelo aspecto artístico do luteranismo. Boa viagem.

Obs : Não sou luterano, mas reformado ( presbiteriano independente ) .

POR ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA



















































Cristo é o caminho, o Cristianismo é o desvio. Por Jefferson Ramalho


A passagem do Novo Testamento que me levou a pensar no que escrevi nesta reflexão foi aquela em que o Mestre curou o criado de um centurião romano.

O texto é fantástico como tantos outros apresentados nos evangelhos!

Mas dois versículos que sempre passam despercebidos são centrais em todo o contexto daquele momento vivido pelo Senhor Jesus.


Refiro-me aos versículos 11 e 12, nos quais Ele diz: ...muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes.

Um fundamentalista imediatamente diria: claro, muitos virão e se assentarão à mesa com os patriarcas caso convertam-se a Jesus Cristo. Contudo há uma observação simples para ser feita. O Mestre não diz que muitos virão e se converterão; Ele apenas diz que muitos virão e tomarão lugares.

Mais simples ainda fica essa leitura quando se observa com cuidado a importância do centurião nessa história. Ele é a chave de tudo e a sua fé é o ponto de partida.

É importante lembrar que o centurião não era nem judeu nem discípulo de Jesus, logo não era membro do Judaísmo, muito menos do Cristianismo que ainda nem existia. Possivelmente, aquele centurião, como todo bom e autêntico soldado romano, era adorador de vários deuses e provavelmente do imperador romano. Numa linguagem cristã, ele era pagão, numa linguagem mais coerente, ele era um religioso politeísta.

Há ainda a hipótese de que nem religioso politeísta ele era, mas apenas um homem que de judeu e de seguidor de Jesus não tinha nada.

Uma segunda observação: ele não se torna cristão após a cura de seu criado. O texto nem relata isso, pois se ele tivesse se convertido, certamente estaria relatado. Mas não, ele permanece na condição (a) religiosa em que se encontrava quando foi procurar ao Mestre.

Portanto, o que um texto deste, se lido a olho nu, sem as lentes da religião cristã, sem os óculos da teologia sistemática ortodoxa e sem os pré-conceitos do fundamentalismo, poderá significar a não ser que Jesus Cristo é o Caminho, e a religião, e aqui entra o Cristianismo, também o desvio, e a Graça o meio através do qual Deus salva o ser humano, seja ele alguém que se converterá em algum momento ao Evangelho ou não?

Neste sentido, não dá mais para afirmar que um ser humano que passa a sua vida inteira sem freqüentar uma igreja de crentes irá para o inferno só porque não teve tal experiência. Graças a Deus, em muitos casos, pois há pessoas que quando resolvem freqüentar uma denominação evangélica se tornam loucas, manipuladas, bitoladas, cegas espiritualmente, enganadas, alienadas, bestializadas, e tudo o que for possível entrar nesta lista, menos alguém que de fato conheceu e compreendeu o Evangelho da Graça.

Com isso, quando muitos se convertem às igrejas de crentes, acreditam que estão no Caminho, quando na verdade estão no desvio. Têm uma facilidade enorme para apontar quem vai e quem não vai para o Céu, contudo, não se percebem como pessoas que carecem da Graça de Deus ainda mais, pelo simples fato de serem pessoas que não sabem fazer outra coisa, a não ser julgar o próximo.

Nisto creio e afirmo com todas as letras: Cristo é o Caminho, pois é capaz de salvar e ver fé genuína em um centurião romano, adorador de deuses estranhos, pagão e adorador do imperador, mas o Cristianismo é o desvio, pois consegue maquiar-se com as belezas sublimes do Evangelho, mas vive uma religião semelhante à dos fariseus dos tempos de Jesus, que eram zelosos e ortodoxos no que se refere à obediência ao texto, mas cegos na prática, sobretudo, por julgarem com facilidade, seres humanos que eram tão imperfeitos quanto eles.

Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois este pratica as maiores e mais terríveis atrocidades em nome de Deus; Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois este ensina as pessoas, a ingênua e inocentemente negociarem com Deus a fim de conseguirem prosperidade financeira, como se Ele tivesse interesse em enriquecer materialmente os seus filhos; Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois burra e admiravelmente se tornou a religião que menos entendeu os ensinamentos de seu próprio fundador, se é que Jesus foi o fundador desse negócio; Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois consegue levar as pessoas a acreditarem que os não-cristãos irão para o inferno só porque não se tornaram cristãos, como se Deus só pudesse salvar pessoas por meio de experiências religiosas dentro das paredes da religião cristã; Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois este em vez de tornar a caminhada cristã uma caminhada de liberdade e descanso, torna-a ainda mais penosa, turbulenta, repleta de regras e cargas a serem carregadas; Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, pois em vez de manter as pessoas que acreditam estarem servindo ao Jesus apresentado nos evangelhos, consegue desviá-las a qualquer outro caminho que não é o Caminho da Graça de Deus em Cristo.

Cristo é o Caminho, o Cristianismo é o desvio, por tantos outros e infindáveis motivos! Cabe agora a criatividade de cada um para continuar nesta reflexão, se é que para enxergar as discrepâncias existentes entre Cristo e o Cristianismo, seja uma tarefa que exija muita criatividade. Penso que não.

fonte : http://www.editorareflexao.com.br/MomentoReflexao.aspx/Detalhe/1



Jefferson Ramalho :

Graduado em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001 - 2005), licenciando em História pelo Centro Universitário Nossa Senhora da Assunção, Pós-graduando em História pela Pontifícia Universidade Católica de Sao Paulo e formado em Filosofia e Religião pela Faculdade do Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

É professor de História da Igreja e História das Religiões na Faculdade de Cultura e Ensino Teológico de Osasco, no Seminário Teológico do Betel Brasileiro e no Instituto Bíblico O Brasil para Cristo. Foi o Relações Públicas da Área Acadêmica da Editora Vida de 2005 a 2008.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Política. Por Rubem Alves



Uma aliança política que jamais aconteceria em outros tempos arrancou das cavernas da minha memória uma piadinha do Reader’s Digest de que me havia esquecido. É assim. Havia, numa cidadezinha dos Estados Unidos, uma Igreja Batista que se gabava do seu rigor no combate às bebidas alcoólicas, sacramentos do Inferno. Havia, nessa mesma cidade, uma cervejaria enorme que fabricava milhares de litros de cerveja e era fonte de empregos, de riqueza, de alegrias e bebedeiras.

Claro que a dita Igreja Batista tinha, como missão, combater a Cervejaria: era a luta do Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade. Aconteceu, entretanto, que por razões inexplicáveis, a Cervejaria fez uma doação de 500.000 dólares à Igreja. O que provocou uma enorme confusão entre os fiéis. “Dinheiro do Demônio“, diziam os mais convictos; “Não pode ser aceito.“ Se fosse uma doação de 100 dólares a decisão seria fácil. Os 100 dólares seriam recusados. Mas 500.000 dólares é quantia difícil de ser recusada. Confesso que eu mesmo estremeceria... Convocou-se, então, uma assembléia para deliberar sobre o assunto. Nas Igrejas Batistas as bases são sempre consultadas antes de se tomar qualquer decisão.

Depois de inflamadas discussões que se prolongaram pela madrugada, finalmente um dos membros da Igreja fez uma proposta que resolveu o conflito e foi aprovada por unanimidade: “A 1ª Igreja Batista da cidade de Beerland resolve aceitar a doação de 500.000 dólares feita pela Cervejaria Drinkjoy na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus.“ Pois é: todas as alianças são possíveis e aceitáveis desde que se encontrem as palavras explicativas adequadas. Pois quem diria que o Partido Brasileiro do Reino dos Homens iria um dia fazer aliança com o Partido Universal do Reino de Deus? Esses dois partidos representam ideais irreconciliáveis, como os ideais da Igreja Batista e da Cervejaria.

Karl Mannheim é um dos meus sociólogos favoritos. Tinha imaginação. Era inteligente. Não precisava se valer de estatísticas para pensar. (Hoje, nas universidades, a inteligência foi substituída pelas estatísticas. Parece que, no mundo da ciência, só são aceitas as afirmações que forem derivadas de tabelas estatísticas. Já ouvi uma discussão sobre quantas tabelas estatísticas uma tese de mestrado deve ter, para ser aceita...). Pois há mais de 50 anos Mannheim predisse o desaparecimento das utopias, na política. O que são utopias? Utopias são fantasias de uma sociedade melhor que servem para guiar a ação. Minha utopia, por exemplo, tem a forma de um jardim. Contra as utopias há a sentença dos realistas que as recusam sob a alegação de serem irrealizáveis. Mas o Mário Quintana responde:

“Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”

Mannheim vislumbrou um momento em que, com o abandono das utopias, os políticos passariam a se guiar por interesses pragmáticos de poder, que podem ser ou 500.000 dólares ou 500.000 votos... Quando a gente vê São Jorge e o Dragão estabelecendo alianças é porque eles abandonaram os seus sonhos. O que se tem é um produto híbrido, um São Jorge com rabo de Dragão, ou um Dragão com cara de São Jorge.

O livrinho do Orwell Revolução dos Bichos (Animal Farm, em inglês) fala sobre isso. É sobre uma revolução que os bichos, liderados pelos porcos, fizeram na fazenda para se livrarem do jugo do fazendeiro que os explorava em benefício próprio. Os porcos tinham razões de sobra para serem os líderes da revolução. Eram os animais mais sacrificados. Eram engordados para se transformarem em linguiça, torresmo, toucinho, lombo, leitoa assada, pernil assado... Mas, no decorrer do processo revolucionário importantes transformações aconteceram. Pois, como os próprios porcos diziam, o processo é histórico, dialético, não é rígido, não é linear... E os porcos começaram a ver que o fazendeiro e seus empregados não eram tão ruins assim. Havia interesses comuns que permitiam que eles fizessem proveitosas alianças. A última cena do livrinho é cômica e terrível: a bicharada, do lado de fora, olha através da janela, para dentro da casa do fazendeiro. Lá estava acontecendo uma reunião festiva para celebrar um novo dia político de cooperação entre fazendeiros e porcos. E os bichos, perplexos, olhavam para o fazendeiro, olhavam para os porcos, e não conseguiam saber quem era quem: o fazendeiro tinha focinho de porco e os porcos fumavam charutos como o fazendeiro...





RUBEM ALVES

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A oração no pensamento de Paul Tillich


Autor : Dr. Carlos R. Caldas Filho, professor no Mackenzie.

Introdução


Da (re)descoberta da espiritualidade no debate teológico contemporâneo


No período que se convencionou chamar "moderno", dominado pela epistemologia de corte iluminista, marcado por uma abordagem racionalista e mecanicista à realidade, a academia teológica em geral não tem dado muito valor ao tema da espiritualidade. Tal racionalidade pode ser observada em manuais de teologia sistemática, principalmente no capítulo da teo-ontologia, que demonstram preocupação em apresentar um detalhamento sobre "o ser e os atributos de Deus", a um ponto tal que a dimensão do mistério fica totalmente excluída. O transcendente, a realidade primeira e última, o absoluto, em tais teologias sistemáticas é reduzido a um objeto de estudo, como um elemento químico que pode ser decomposto, ou um material qualquer que pode ser fracionado, dissecado, pesado, medido, contado, examinado em tubo de ensaio de laboratório e visto na lente de um microscópio e ter sua estrutura genética mapeada. Tais construções teológicas não privilegiam a espiritualidade, entendida como "estado de relacionamento profundo com Deus" (Houston in Elwell, 1990, p. 60). Mas é óbvio que a espiritualidade acompanha o cristianismo praticamente desde o berço - haja vista que a forma adjetiva (pneumatikós, "espiritual") aparece em 1 Coríntios 2:13-15; 9:11; 14:1. Não obstante, a história do pensamento cristão mostra como não poucas vezes tem surgido um divórcio entre saber teológico teórico e vivência da fé. Exemplo eloqüente vem do século XV, a clássica obra Imitação de Cristo, que apresenta contundente denúncia contra tal divórcio:

"Que te aproveitas discorrer profundamente sobre a Santíssima Trindade, se não és humilde e, por isso, à Trindade desagradas? Em verdade, as palavras sublimes não fazem o homem santo e justo, é a vida pura que o torna querido de Deus, prefiro sentir compunção a saber-lhe a definição " (Imitação de Cristo, 1970, p. 13),

É óbvio que este trecho da Imitação de Cristo, não obstante ter sido escrito há séculos, aponta para situação típica da modernidade, qual seja, separar fé e reflexão. Neste sentido, a pós-modernidade tem propiciado uma (re)descoberta da espiritualidade. Trata-se sem dúvida, de nota alvissareira. Pois, como apresenta a tradição dominicana, a teologia deve ser theologia mentis et cordis - loqui cum Deo, loqui de Deo (teologia da mente e do coração - falar com Deus, falar sobre Deus).



Do lugar (e do não lugar) da oração em reflexões teológicas modernas .


É inegável que uma das mais tradicionais possibilidades de vivência da espiritualidade é a oração. Apesar disso, é possível perceber que oração tem sido "conteúdo nulo" em algumas teologias sistemáticas produzidas no período da modernidade. Neste sentido, observe-se que a Teologia Sistemática de Louis Berkhof (que se insere em uma tradição reformada conservadora) não trata do tema da oração, nem de qualquer aspecto da espiritualidade clássica. A mesma ausência é notada na Teologia Sistemática de Wayne Grudem (Grudem, 1999). A obra (Introdução à Teologia Sistemática) de Millard J. Erickson (que fora aluno de Wolfhart Pannenberg), teólogo batista também alinhado com uma tradição teológica conservadora, trata do tema da oração apenas tangencialmente, quando apresenta a doutrina da providência (Erickson, 1997, p. 178-179). Curiosamente, a Dogmática Evangélica, de Alfredo Borges Teixeira, talvez a primeira obra do gênero no Brasil, apresenta um breve resumo sobre oração (1976, p. 192-195). Talvez mais curioso ainda seja observar que a Teologia Sistemática de Charles Hodge, representante da "Velha Escola" de Princeton, obra que utiliza como ferramenta auxiliar a filosofia do senso comum, monumental obra com quase 1700 páginas, apresenta 15 páginas a respeito do tema da oração (ou seja, cerca de 0,8% do total). Já nos tempos que se convencionou chamar "pós-modernos", marcados por uma epistemologia não tão racionalista (e nem por isso antiintelectual), lugar, espaço e atenção têm sido dados à espiritualidade. Uma epistemologia que rompe com o racionalismo mecanicista de corte iluminista terá abertura para o subjetivo, o intuitivo, a contemplação, para o mistério, sendo menos preconceituosa quanto à espiritualidade. Mas o tema do presente trabalho não é lugar (ou não lugar) da oração em teologias sistemáticas modernas. Nem é apresentar uma teologia da oração. O que o presente trabalho pretende apresentar considerações sobre oração no pensamento de Paul Tillich (1886-1965) o famoso "teólogo da correlação", indubitavelmente um dos mais destacados teólogos do século XX. Tillich, teólogo que trabalha com uma ferramenta auxiliar de filosofia existencialista, por algumas (poucas) vezes se ocupa do tema da oração. Tal constatação é, sem dúvida, interessante por demais. Tillich, teólogo existencialista, tido na conta de liberal em não poucos círculos teológicos, ocupando-se da oração? Oração foi tema tido por Tillich como importante a ponto de entrar em sua mais conhecida obra? De fato, o tema da oração em Tillich não tem recebido muita atenção da parte de especialistas no corpus tillichiano. Por isso, o presente trabalho parte da hipótese operacional que, para Tillich, a oração é mais importante que alguns dos especialistas em temas tillichianos gostariam de admitir. A seguir, apresentar-se-ão, posto que em síntese, sete (tradicional número da perfeição na simbologia bíblica) pistas para a formulação de uma teologia da oração a partir do referencial teórico tillichiano. O presente trabalho é apresentado com consciência plena de sua limitação. Terá atingido seu objetivo no entanto se conseguir apresentar sugestão para futuras e mais alentadas pesquisas nesta linha. A obra que dá base à presente pesquisa é a que pode ser considerada a magnum opus de Tillich, a saber, sua Systematic Theology (Volume Um - Razão e Revelação, Ser e Deus, e Volume Três - Vida e o Espírito, História e o Reino de Deus), publicada em 1963 pela Editora da Universidade de Chicago . Oração como parte da revelação dependente. Comentando sobre a dinâmica da revelação, Tillich apresenta seu entendimento quanto à diferenciação que faz entre revelação original e revelações dependentes. A revelação original, que Tillich denomina "milagre original", é distinta da revelação dependente, que acontece continuamente na história da igreja. São de Tillich as seguintes palavras: " Uma situação revelatória dependente existe em todo momento em que o Espírito divino possuir, abalar e mover o espírito humano. Toda oração e meditação, se realizam seu sentido, isto é, reunir a criatura com o fundamento criativo, são revelatórias neste sentido. As marcas da revelação: mistério, milagre e êxtase - estão presentes em toda oração verdadeira. Falar a Deus e receber uma resposta formam uma experiência extática e milagrosa; elas transcendem todas as estruturas ordinárias da razão subjetiva e objetiva. É a presença do mistério do ser e uma atualização de nossa preocupação última. Se a oração é trazida ao nível de uma conversa entre dois seres, é blasfema e ridícula. Se, contudo, é entendida como a "elevação do coração", isto é do centro da personalidade de Deus, é um evento revelatório ". (TS, I, 112).


Vê-se portanto, que Tillich tem a oração em alta conta, e praticamente redefine seu significado, elevando-a a um patamar bem mais elevado do que em geral se percebe que a oração é entendida em círculos católico-romanos, pietistas, evangelicais, pentecostais ou neopentecostais.

Paul Tillich e a oração

Oração e providência


No que talvez seja um dos pontos altos de sua teologia sistemática, a saber, sua discussão sobre a realidade de Deus, Tillich fala sobre a providência divina. Neste momento, Tillich discute sobre o significado (e legitimidade) de orações de súplica ou de intercessão, concluindo favoravelmente sobre a oração como exercício de fé capaz de transformar uma determinada situação existencial:

" A criatividade diretiva de Deus responde à pergunta pelo sentido da oração, especialmente das orações de súplica e de intercessão. Nenhum destes tipos de oração pode significar que se espere que Deus interfira nas condições existenciais. Ambas significam que Deus é solicitado a dirigir a situação dada rumo à plenitude. As orações são um elemento nessa situação, e se são orações verdadeiras são também um fator dos mais poderosos. Como um elemento na situação uma oração é uma condição da criatividade diretiva de Deus. Mas a forma desta criatividade pode ser uma rejeição completa do conteúdo manifesto da oração. Contudo, a oração pode ter sido ouvida de acordo com seu conteúdo oculto, que é a entrega de um fragmento da existência de Deus. Este conteúdo oculto é sempre decisivo. É o elemento na situação que é usado pela criatividade diretiva de Deus. Toda oração séria contém poder, não por causa da intensidade do desejo expresso nela, mas por causa da fé que a pessoa tem na atividade diretiva de Deus. Tal fé transforma a situação existencial" . (TS, I, 224)

Tillich reconheceu que esta é sua interpretação básica da oração (ST, III, 191). Tal afirmação só confirma a hipótese de que a oração é para Tillich mais importante que vários de seus estudiosos e comentaristas têm admitido.



Oração como contemplação do mistério


Em sua discussão teontológica, Tillich discute sobre o ser de Deus, e comenta sobre seu entendimento sobre "Senhor" e "Pai" como símbolos de um relacionamento com o divino. Aí, de maneira coerente, Tillich conclui que a oração tem lugar (importante) neste relacionamento:

"Senhor" e "Pai" são os símbolos centrais para a relação eu-tu com Deus. Mas a relação eu-tu, embora seja a relação central e a mais dinâmica, não é a única, pois Deus é o ser-em-si. Em invocações como "Deus Todo poderoso" é sentido o poder irresistível da criatividade de Deus; em "Deus Eterno" é indicado o fundamento imutável de toda vida. Além destes símbolos de invocação, existem símbolos usados na meditação nos quais a relação eu-tu é menos explícita, embora seja sempre implícita. Contemplar o mistério do fundamento divino, considerar a infinitude de sua vida, intuir a maravilha da criatividade divina, adorar o sentido inexaurível da auto-manifestação divina - todas estas experiências estão relacionadas a Deus sem envolverem uma relação eu-tu explícita. Muitas vezes uma oração que começa dirigindo-se a Deus como Senhor ou Pai,termina numa contemplação do mistério do fundamento divino. E, reciprocamente, uma meditação do mistério divino pode terminar numa oração a Deus como Senhor ou Pai ". (TS, I, 241).



Oração como experiência extática


Tillich, ao comentar sobre a "Presença Espiritual" (a rigor, sua pneumatologia), fala bastante sobre o que denomina "experiência extática". Para Tillich, a oração é simplesmente central na experiência extática. Neste ponto de sua reflexão teológica encontram-se as que provavelmente são as mais lúcidas compreensões de Tillich quanto à oração:" O melhor e mais universal exemplo de uma experiência estática é o padrão da oração. Cada oração séria e bem sucedida - que não fala a Deus como a um amigo familiar, como muitas orações fazem - é uma fala a Deus, o que significa que Deus é transformado em um objeto por quem ora. Entretanto, Deus nunca pode ser um objeto, a menos que seja um sujeito ao mesmo tempo. Nós só podemos orar ao Deus que ora a Ele mesmo através de nós. Oração é uma possibilidade somente na medida em que a estrutura sujeito-objeto é superada; por conseguinte, é uma possibilidade estática. Aí reside a grandeza da oração, e o perigo de sua contínua profanização. O termo "estático", que geralmente tem conotações negativas, possa talvez ser entendido de maneira positiva, se entendido como característica essencial da oração". (ST, III, 120, tradução do autor).

A partir desta citação, conclui-se que Tillich com sensibilidade valoriza a oração, pois não a banaliza, pois não a interpreta como sendo mero recurso mágico, a ser empregado com fins meramente utilitaristas, como não raro acontece com literalmente milhões de praticantes e adeptos de expressões tão diversas como muitos segmentos da devocionalidade popular romana e de grupos neopentecostais em atuação no Brasil e no mundo.



Oração como elemento integrante do Novo Ser como processo (santificação)


Tillich, ao falar do impacto da Presença Espiritual no indivíduo, que resulta em um processo de vida "baseado na experiência da regeneração, qualificada pela experiência da justificação, e desenvolvendo como a experiência da santificação" (ST, III, 228), apresenta a oração como constituinte do processo de santificação. Tillich afirma não ver sentido na distinção entre uma devoção formalizada e uma particular (ST, III, 236). Independentemente de acontecer em "formato" formalizado ou extemporâneo, a oração, no entendimento tillichiano, será importante no processo de santificação. Oração como parte do culto: Tillich fala sobre o culto, comunhão da igreja com a Presença Espiritual. Para Tillich, o culto inclui adoração, oração e contemplação. Quanto à oração como elemento do culto, Tillich diz: "O segundo elemento do culto é a oração... A idéia central era que toda oração séria produz algo novo em termos de liberdade criatural que é levado em consideração no conjunto da criatividade diretiva de Deus, como o é cada ato do eu centrado do homem. Essa novidade, criada pela oração de intercessão, é o ato Espiritual do elevar o conteúdo de nossos desejos e esperanças até à Presença Espiritual. Uma oração na qual isso ocorre é "ouvida", mesmo que os acontecimentos subseqüentes venham a contradizer o conteúdo manifesto da oração. O mesmo é válido para as orações de intercessão que não apenas produzem uma nova relação com aqueles por quem a oração é feita, mas também introduzem uma mudança na relação com a ultimacidade dos sujeitos e objetos de intercessão. Portanto, é falso limitar a oração à oração de gratidão. Essa sugestão da escola ritschliana está enraizada numa profunda ansiedade quanto à distorção mágica da oração e suas conseqüências de uma perspectiva sistemática, infundada, embora seja altamente justificável na prática. Ação de graças a Deus é uma expressão de adoração e louvor, mas não um reconhecimento formal que obrigue Deus a oferecer mais benefícios sobre aqueles que são gratos. Contudo, se proibidas, as orações de súplica criariam uma relação com Deus totalmente irreal. Nesse caso a expressão das necessidades do homem a Deus e a acusação de Deus feita pelo homem por não haver respondido (como no livro de Jó) e todas as lutas do espírito humano com o Espírito divino, estariam excluídas da oração. Certamente esses comentários não são a última palavra na vida de oração, mas a "última palavra" seria vazia e profanizada, como o são inúmeras orações, caso fosse esquecido pelas igrejas e seus membros o paradoxo da oração. Paulo expressa o paradoxo da oração de maneira clássica quando fala da impossibilidade da oração verdadeira e sobre o Espírito divino que representa diante de Deus aqueles que oram, sem uma "linguagem objetivante" (Romanos 8,26). É o Espírito quem fala ao Espírito, assim como é o Espírito quem discerne e experiencia o Espírito. Em todos esses casos, o esquema sujeito-objeto do "falar a alguém" é transcendido: aquele que fala através de nós é aquele a quem é dirigida a fala". (TS, III, 531).

Nesta longa citação, Tillich ressalta a importância da vida comunitária da comunidade de fé que responde à Presença Espiritual por meio do culto e da oração.



Oração e seu aspecto peticionário


Tillich também apresenta seu teologizar sobre o aspecto mais óbvio da oração, que é da súplica, da petição. É curioso que Tillich faça menção de "curadores pela fé" (faith healers) em sua obra. Não se pode esquecer que a Teologia Sistemática de Tillich foi produzida em sua fase nos Estados Unidos, onde a presença e a atuação de "curadores pela fé" é fenômeno comum há décadas, mas algo inexistente na Alemanha, terra natal de Tillich. Portanto, ele inclui em seu pensar sistematizado uma reflexão sobre o aspecto peticionário e intercessório da oração. Talvez seja razoável admitir que, tivesse Tillich permanecido toda sua vida na Alemanha, não teria incluído em sua teologia as reflexões que fez sobre aspecto tão importante da oração. No trecho que talvez seja um dos menos existencializados de sua reflexão, Tillich afirma:" Já que orações e intercessões pela saúde pertencem à relação normal entre o homem e Deus, é difícil traçar uma linha divisória entre oração determinada pelo Espírito e oração mágica. Falando em termos gerais, podemos dizer que a oração determinada pelo Espírito busca levar nosso próprio centro pessoal, inclusive nossa solicitude para com nossa própria saúde ou de outrem, diante de Deus, e que ela está pronta a aceitar a aceitação divina da oração, mesmo que o conteúdo dessa oração seja atendido ou não. E, reciprocamente, uma oração que é apenas uma concentração mágica no alvo desejado, usando Deus para sua realização, não aceita uma oração não atendia como oração aceita, pois o alvo último no poder mágico não é Deus e a união com ele, mas o objeto da oração, por exemplo, a saúde. Uma oração por saúde, na fé, não é uma tentativa de cura pela fé, mas uma expressão do estado de ser possuído pela Presença Espiritual " (TS, III, 598).

Assim, Tillich comenta sobre algo que, por mais inusitado que pareça, o coloca próximo da realidade brasileira, onde a oração tantas vezes é reduzida a busca de algo que se deseja ou se necessita, mas nem sempre e não necessariamente na comunhão com Deus.



Conclusão


Há alguns anos, o que era então o mais famoso e conhecido pregador evangélico brasileiro, em uma de suas eloqüentes mensagens, falando exatamente sobre o tema da oração, atribuiu a Paul Tillich uma declaração na qual o teólogo alemão supostamente teria dito que em sua vida não havia mais necessidade de oração. O pregador então, com uma verve invejável aplicava a ilustração dizendo: "teologia que não desemboca em oração não é teologia...".

Um breve exame na Teologia Sistemática de Tillich mostra que ele concordaria com esta declaração do pregador brasileiro. Mas o pregador faria bem se tivesse se dado ao trabalho de pesquisar o que Tillich realmente disse a respeito da oração.

Que o presente trabalho, apesar de toda sua limitação, possa motivar pesquisas sobre este, e outros aspectos da espiritualidade presentes no pensamento de Tillich.

Carlos Caldas

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo
Pós-Graduação em Ciências da Religião




Universidade Metodista de São Paulo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Metodistas criticam ação da PM no Rio de Janeiro


UMA CARTA DE ORIENTAÇÃO E REPÚDIO DA JUVENTUDE DA PASTORAL DE COMBATE AO RACISMO DA 1° REGIÃO ECLESIÁSTICA DA IGREJA METODISTA DO BRASIL - SOBRE AS POLÍTICAS DE MORTE DO GOVERNADOR SERGIO CABRAL .


Prezados Revdssimos, Revds,Revdssimas, Revdas, Leigos/as, Irmãos e Irmãs em Cristo;


A Juventude da Pastoral de Combate ao Racismo vem se manifestar, contra o projeto de Morte do Governo Sergio . Acreditamos que diferente da onda que a REDE GLOBO , A SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA do GOVERNO ESTADUAL-RJ, tenta fazer a população acreditar, onde o bem (Secretaria de Segurança Pública) e o Mal (traficantes) estão duelando em nosso estado, as coisas não acontecem dessa forma.


O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Não está em jogo a destruição da estrutura do crime, ela está se rearranjando apenas. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro , e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime.


A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ.


O mais drástico é que quem vai morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem acesso à comunicação, saúde, luz… Há todo um drama social que essa população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante, estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.


É uma política midiática de visibilidade de segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPPs podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes. Ao nosso ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.


Por isso acreditamos no poder restaurador da Igreja de Cristo, chamada nesse século e nesses dias para fazer a diferença, operar no meio do povo oprimido a transformação social, espiritual, econômica, política e cultural de um povo que está sofrendo e esse povo é negro e pobre, estamos vivendo esses dias terríveis, e a juventude da Pastoral de Combate ao Racismo da 1ª Região Eclesiástica manifesta atráves dessa carta sentimentos de compaixão, estaremos em oração pelo nosso povo, mas é certo que estaremos em ação, antes de tudo buscando a libertação do nosso povo, pois acreditamos que fomos chamados para uma missão em nossos dias, assim como Moisés e outros foram chamados naqueles dias para cumprir a missão de Deus nessa terra.

Na resistência a tod@s!


Um Afroabraço!!


Dayse Gomis e Cyro Garcia


Juventude da Pastoral de Combate ao Racismo


Igreja Metodista - 1ª Região Eclesiástica




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Teólogo sugere que evangélicos deixem homossexuais em paz



O teólogo presbiteriano Juan Stam, hoje vivendo na Costa Rica, propôs às igrejas evangélicas uma moratória, de cinco anos, para que elas analisem com calma o assunto da homossexualidade, deixem os homossexuais em paz e se fixem em outros temas mais importantes e evangélicos.

Pautada pelas alas conservadoras da Igreja Católica e denominações evangélicas, a homossexualidade entrou com força nos debates durante campanha à presidência da República deste ano. O tema ficou bem demarcado pelas balizas da moralidade, amparado por versículos bíblicos.

Faria muito bem para nós recordar que as mesmas passagens bíblicas denunciam a avareza – os avarentos não entrarão no Reino de Deus. “O Novo Testamento diz muito mais contra a avareza e a cobiça do que contra a homossexualidade”, destaca Stam.

A guerra homofóbica está causando dano à igreja, sustenta o teólogo. Evangélicos parecem estar presos a uma obsessão pelos temas sexuais, “como se fossem os únicos problemas críticos de nosso tempo e como se deles dependesse o futuro da igreja e da civilização.”

Esse tema domina, de modo a cansar, o discurso de políticos protestantes. Ele indaga, por exemplo, por que igrejas evangélicas e católica não se uniram para organizar marchas contra as guerras do Iraque e do Afeganistão? Ou em protesto contra o golpe de Estado em Honduras e, agora, contra o regime repressivo do seu governo?

Por isso, as igrejas evangélicas “carecem de autoridade moral para que suas campanhas anti-homossexuais sejam convincentes”, afirma, agregando: “Suas arengas contra a homossexualidade caem no ridículo ante os setores pensantes e críticos da população e, às vezes, cheiram a oportunismo e hipocrisia”.

O evangelho, lembra o teólogo, não vive da negação, mas das boas novas. Na América Latina, evangélicos têm se destacado por serem anti: anticatolicismo, anticomunismo, antiecumenismo e agora anti-homossexualidade. “O evangelho é o ‘sim’ e o ‘amém’ de Deus; quando o negativo domina a Igreja, ela está doente”, sustenta.

O viés religioso sobre o homossexualismo, que apareceu na campanha política, deixou de lado dados preocupantes e assustadores para quem defende o valor último da vida. De 1980 a 2009, o Grupo Gay da Bahia contabilizou 3.196 assassinatos de homossexuais no Brasil, uma média de 110 por ano.

O Paraná é o Estado mais homofóbico do país, ao lado da Bahia, e seguido por São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais e Alagoas. No ano passado, foram mortos 15 travestis, oito gays e duas lésbicas no Paraná. Entre travestis e transsexuais, 70% já sofreram algum tipo de violência naquele Estado.

O ex-presidente do Grupo Gay da Bahia, o antropólogo Luiz Mott, frisa que a maioria dos crimes contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBT) é motivada por “homofobia cultural”.

A comunidade LGBT luta pela aprovação do projeto de lei, em tramitação no Congresso nacional, que criminaliza a homofobia. O presidente da Associação Brasiléia de LGTB, Toni Reis, destaca que o maior empecilho para a aprovação da lei é a oposição de grupos religiosos conservadores.

Ele afirma, contudo, que a reivindicação da comunidade LGBT não é o casamento religioso, mas a união civil. Reis menciona, em matéria no Brasil de Fato, que 53 países têm legislação específica contra a homofobia, dentre eles o Uruguai, a Argentina, a Colômbia e o México.





Fonte : Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

Quem são vocês ?


Um breve recado. Gostaria de conhecer um pouco sobre vocês, leitoras e leitores. No lado direto do blog há uma pesquisa com o seguinte título: VOCÊ SE CONSIDERA.....

Logo abaixo, coloquei várias opções religiosas, assim como não me esqueci do ateísmo e do agnosticismo.


Por favor, respondam.
Abraços

Jesus: mitológico ou histórico? Sobretudo, literário



Apesar de não ter deixado nenhum documento escrito de próprio punho – assim como Sócrates – Jesus Cristo não tem sua existência questionada – diferente do que acontece com o filósofo grego. Trata-se de uma das figuras históricas sobre as quais mais documentos se tem na literatura – seja ela “oficial” ou de ficção. Pelo critério da múltipla confirmação, a partir do relato de sua vida feito por diferentes autores que nunca se viram, ele de fato existiu. Por um lado, é tido como um revolucionário histórico assassinado por se auto-proclamar o Rei dos Judeus dentro dos domínios de um ainda poderoso Império Romano. Por outro, é um semi-deus mitológico cujas glórias foram cantadas por legiões de admiradores, tal como o Ulisses das epopéias gregas. Seja de ficção ou não, literatura sobre ele é o que não falta.

De acordo com a historiadora Eliane Moura Silva, da Unicamp, os fatos da vida de Cristo são relatados de passagem em alguns textos antigos, como a Vida dos Judeus, de Flávio Josefo, que viveu entre os anos 37 d.C. e 103 d.C., porém de forma pontual e não muito extensiva. Segundo ela, há estudos que revelam ser verdadeiras muitas das referências históricas contidas nos Evangelhos do Novo Testamento, que tratam da vida de Cristo, mas que também foram escritos posteriormente. “Trata-se de período conhecido da história do Império Romano, embora a Judéia [onde Jesus viveu] não fosse a principal preocupação nem a província romana mais importante na época”, afirma.

Uma dessas referências históricas é o reinado de Herodes Antibas, durante o qual Jesus nasceu. Como esse reinado acabou quatro anos antes do marco zero do calendário cristão os pesquisadores são praticamente unânimes em afirmar que o nascimento de Jesus se deu, na verdade, entre os anos 6 a.C. e 7 a.C.. Outra unanimidade é que nenhum pesquisador, atualmente, atribui ao Santo Sudário valor histórico para provar a existência de Jesus. Uma pesquisa iniciada pelo brasileiro Carlos Chagas Filho, que foi Decano da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, datou o tecido tido como Santo Sudário como sendo do século VII, não podendo ter sido usado para cobrir o rosto de Cristo em sua crucificação.

Luis Carlos Susin, da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul (RS), também menciona os textos literários como os principais documentos históricos de que os pesquisadores dispõem para o estudo do período em que Cristo viveu. Segundo ele, através do encadeamento de uma literatura secundária – sobre os relatos bíblicos – e estudos de evolução histórica das línguas nas quais foram escritos o Antigo Testamento (hebraico) e o Novo Testamento (grego), é possível ter bases científicas para os fatos em torno de Jesus narrados na Bíblia.“A arqueologia ajuda na confirmação e na contextualização, mas permanece muda, sem documentos literários”, acredita Susin.

Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, em Israel, diz que sua área de pesquisa é a única que fornece dados novos em relação ao que já se conhece sobre os fatos relatados na Bíblia. Uma das recentes descobertas arqueológicas foram as ruínas de um antigo local de peregrinação religiosa, cuja datação indicou que ele teria sido construído por volta do século III d.C. Essas ruínas estavam nas margens do rio Jordão, onde Jesus teria sido batizado por João Batista, segundo o relato bíblico. Outros achados arqueológicos são os restos de um barco e de uma casa que teria sido de um dos discípulos de Jesus, em Cafarnaum, uma aldeia de pescadores onde ele começou a pregar.

O historiador André Chevitarese, do Laboratório de História Antiga da UFRJ e do Núcleo de Estudos Estratégicos, da Unicamp, explica que existem dois tipos de pesquisa arqueológica relacionada a fatos bíblicos. Uma é fundada nas religiões judaico-cristãs, com viés religioso, tentando provar a veracidade da Bíblia, e político, tentando provar que as terras da região de Israel sempre pertenceram aos judeus. A outra vertente parte de relatos como os do Velho Testamento para procurar, por exemplo, restos arqueológicos materiais em regiões descritas pelo texto bíblico, sem uma finalidade prévia de comprovar ou refutar a Bíblia.

Parece existir uma contradição entre a narrativa dos Livros dos Reis, que fala de Salomão, e o que foi encontrado pelos arqueólogos”, exemplifica Chevitarese. Segundo ele, não havia nenhum vestígio de construções suntuosas datadas do século X a.C., época em que teria reinado Salomão. “As grandes construções que os relatos bíblicos atribuem ao período fazem parte de um discurso ideológico para valorizar Salomão em relação a outros reis. Isso significa que devemos ter cautela sobre a literatura da época”, avalia.

Outro achado importante, que mobilizou arqueólogos, historiadores, filólogos e cientistas da religião, foram os pergaminhos encontrados em vasos de cerâmica nas cavernas de Qumram, próximas ao Mar Morto. Esse material, que pôde ser visto no Brasil em exposições no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, e na Pinacoteca de São Paulo, inclui pedaços de manuscritos originais de textos do Velho Testamento – correspondente à Torá judaica – e textos de reflexão dos essênios, que explicam por que essa comunidade de judeus foi para o deserto viver segundo suas tradições: eles haviam brigado com os sacerdotes do Templo de Jerusalém, que segundo eles, haviam violentado as leis da Torá. Apesar de nada informarem sobre Jesus ou o cristianismo, esses documentos revelam que um judeu celibatário, como Cristo, não era tão incomum assim naquele período.

Para o arqueólogo israelense, os relatos do Antigo Testamento – que narram desde a criação do homem até a longa travessia dos judeus pelo deserto antes de sua chegada à terra prometida de Canaã – são uma mera coleção de mitos e epopéias literárias criados a partir do século VII a.C. E o teólogo James Veitch, diretor do Programa de Estudos Religiosos da Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia, diz o mesmo inclusive a respeito dos Evangelhos do Novo Testamento que, segundo ele, seriam histórias orais, em sua origem, nas quais as figuras centrais são seres sobre-humanos ou divinos – como as epopéias gregas que deram origem à literatura ocidental.

“O testemunho transmitido por tradição oral nos primeiros séculos têm um peso decisivo, que não pode ser descartado”, pondera Susin, da PUC-RS. Mas Veitch, em The birth of Jesus: history or myth, afirma que Jesus foi basicamente um bom judeu que fez o melhor de si para apresentar Deus a seus contemporâneos, e teria sido Saulo de Tarso – que ficou conhecido posteriormente como Paulo – o responsável pela disseminação do cristianismo e pela divinização de Jesus. “Foi o grupo que catequizou Paulo que colocou a ressurreição como elemento central da cristandade de Jesus. E Paulo, um judeu helenizado, que falava grego e vivia em cidades, soube dialogar com outras culturas não judaicas, disseminando o cristianismo”, confirma Chevitarese.

A literatura de ficção, a exemplo de alguns teólogos e historiadores, também explora um lado mais humano e menos divino de Jesus. Entre os vários exemplos, estão O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, e A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis, este último adaptado para o cinema por Martin Scorsese. Ambos exploram uma relação amorosa que Cristo teria tido com Maria Madalena e que não aparece nos Evangelhos. No recente best-seller O código Da Vinci, de Dan Brown, a protagonista Sophie, neta do diretor do Museu do Louvre, em Paris, descobre ao final da trama, ser uma descendente direta da linhagem iniciada na relação entre Jesus e Madalena.

Sobre essa suposta relação, a historiadora da Unicamp Eliane Moura Silva observa que há muita coisa escrita no gênero romance. Os autores vão desde grupos que repensam esta questão como uma tradição paralela que a Igreja nega ou esconde, para justificar o celibato dos padres, até grupos feministas que querem rever a questão do celibato e da ordenação feminina. “Alguns autores, como Saramago, buscam, nessa relação sensual e amorosa, recuperar o Cristo humano submetido ao comum que é a marca da vida de homens e mulheres. Não há muito que comprove nada disso do ponto de vista de documentação de ‘época’”, diz.

Para Susin, pesquisador da PUC-RS, a leitura preconceituosa da história da cristandade pintando Madalena como uma mulher pecadora não condiz com os textos dos Evangelhos, nos quais ela aparece como uma discípula proeminente. “Mas disso passar a ser a relação íntima de Jesus, é tocar na imaginação, no desejo e na inquietação, o que é uma sacada de mercado”, diz Susin. “O autor consegue incluir um elemento deixado à sombra numa cultura patriarcal: a mulher, a sexualidade no coração da espiritualidade, a relação de gênero”, completa.

Se os historiadores e arqueólogos não podem dizer nada a respeito do grau de intimidade na relação entre Madalena e Jesus, é possível pelo menos fornecer pistas sobre o homem que ele foi. Chevitarese menciona escavações arqueológicas que encontraram restos de um teatro grego datado de 20 d.C. em uma cidade a 6 km de Nazareth, onde Jesus nasceu, chamada Séforis, na qual ele provavelmente trabalhou na mesma profissão de seu pai, como carpinteiro. O pesquisador da UFRJ lembra uma palavra muito usada por Jesus – hipócrita, que em grego significa “ator de teatro” ou “aquele que usa máscara” – para levantar a hipótese de que ele não era um matuto, mas um homem urbano que teve contato com a cultura helênica em Séforis, próxima à sua cidade natal. Mais um aspecto que, de certa forma, permite relacioná-lo com o Ulisses das epopéias literárias.

Fonte : Portal ComCiência

http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:XdxL_NSe15EJ:www.comciencia.br/reportagens/2005/05/04.shtml+andre+chevitarese&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

domingo, 5 de dezembro de 2010

Jesus, Zeitgeist e o mito de Hórus


Tentei publicar, da forma convencional, um vídeo bem interessante onde Chris Forbes, historiador australiano responsável pelo Departamento de História Antiga da Macquarie University, contesta algumas bobeiras ditas a respeito de Jesus Cristo em alguns filmes bastante populares, mas também completamente fantasiosos, como o famoso Zeitgeist .Dentre as inúmeras besteiras conspiratórias defendidas na película virtual, existe a tese de que Jesus Cristo seria um mito meramente copiado, e devidamente adaptado, da antiga mitologia egípcia de Hórus,considerado o deus-céu.
Como sou completamente burro em assuntos blogueiros, nem sei se estou fazendo de maneira correta. Só sei que o simples processamento deste vídeo está demorando algo em torno de quatro horas ! Como tenho mais o que fazer, estou colando, abaixo, o link do referido vídeo no youtube. É bem rápido, dura em torno de seis minutos. No entanto, é bastante esclarecedor.

Assistam !

http://www.youtube.com/watch?v=wfhPhmpki1k&feature=related




PS : Desabafo. Saudade da minha defesa de tese no Mackenzie. Jamais pensei que uma simples análise no presbitério seria tão " punk " como foi ontem. Detalhe; ainda não acabou ! No próximo sábado ainda tem mais tortura..rss :(

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A ausência de Deus, por Simone Weil.


"Deus brilha, no sentido mais positivo do termo, por sua ausência". Isso não é negar ou anular a Deus. Isso é respeitar a Deus. Ou melhor, "deixar Deus ser Deus".


Simone Weil, filósofa francesa .

sábado, 27 de novembro de 2010

Desabafo e uma breve parada...


Pensei muito antes de escrever este breve post. Relutei. Poucos dos meus escassos seguidores me conhecem pessoalmente. Alguns sãos meus amigos, outros, pensei que fossem, mas, infelizmente, não se comportaram como tal. Tudo bem, já estou acostumado, pois não nutro a ingênua e ilusória crença na bondade humana. Mas não deixa de ser decepcionante quando uma pessoa que você preza se recusa a falar com você, responder um simples e-mail, isto é, te ignora solenemente mesmo sabendo o momento drástico que você está vivendo !

Tenho 35 anos de vida. Já passei por várias situações drásticas. No entanto, a atual beira o desespero . Sabe quando todos os seus sonhos desmoronam de uma vez ? Então, esta é minha atual situação. Mas, não vou entrar em detalhes. Pretendo poupar a pessoa que está lendo de detalhes particulares de minha vida.

No meio de tantas perdas, vem a pergunta; Deus existe ? Tenho absoluta convicção que sim ! Não fosse esse suposto " amigo imaginário", acho que não estaria aqui para escrever estas palavras. Senti, nos últimos dois dias, uma vontade de cometer o ato pensando por Bonhoeffer na prisão de Buchenwald. Obviamente, não quero me comparar ao grande mártir cristão, mas a angústia que toma conta de todo meu ser é muito grande.

Os poucos leitores deste blog notaram que faz um bom tempo que não escrevo nada. Além dos afazeres do curso e do trabalho, minha atual situação psicológica não me permite produzir um texto minimamente razoável. Como não sou muito fã em copiar textos de terceiros, quero poupar meus leitores de textos sem qualidade. Não gosto de escrever qualquer coisa.

Portanto, agora, de forma oficial, vou dar uma breve sumida, isto é, se algo pior não acontecer. Peço aos meus leitores crentes, irmãos de fé, que orem por minha vida. Aos que em nada crêem, mas me admiram, uma simples torcida e uma palavra de carinho cairiam muito bem.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Auto-Retrato Bíblico


Jó 3
Jó amaldiçoa o seu nascimento

1 Depois disto, passou Jó a falar e amaldiçoou o seu dia natalício.

2 Disse Jó:

3 Pereça o dia em que nasci

e a noite em que se disse:

Foi concebido um homem!

4 Converta-se aquele dia em trevas;

e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele,

nem resplandeça sobre ele a luz.

5 Reclamem-no as trevas e a sombra de morte;

habitem sobre ele nuvens;

espante-o tudo o que pode enegrecer o dia.

6 Aquela noite, que dela se apoderem densas trevas;

não se regozije ela entre os dias do ano,

não entre na conta dos meses.

7 Seja estéril aquela noite,

e dela sejam banidos os sons de júbilo.

8 Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia

e sabem excitar o monstro marinho.

9 Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino dessa noite;

que ela espere a luz, e a luz não venha;

que não veja as pálpebras dos olhos da alva,

10 pois não fechou as portas do ventre de minha mãe,

nem escondeu dos meus olhos o sofrimento.

11 Por que não morri eu na madre?

Por que não expirei ao sair dela?

12 Por que houve regaço que me acolhesse?

E por que peitos, para que eu mamasse?

13 Porque já agora repousaria tranquilo;

dormiria, e, então, haveria para mim descanso,

14 com os reis e conselheiros da terra

que para si edificaram mausoléus;

15 ou com os príncipes que tinham ouro

e encheram de prata as suas casas;

16 ou, como aborto oculto, eu não existiria,

como crianças que nunca viram a luz.

17 Ali, os maus cessam de perturbar,

e, ali, repousam os cansados.

18 Ali, os presos juntamente repousam

e não ouvem a voz do feitor.

19 Ali, está tanto o pequeno como o grande

e o servo livre de seu senhor.

20 Por que se concede luz ao miserável

e vida aos amargurados de ânimo,

21 que esperam a morte, e ela não vem?

Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos.

22 Eles se regozijariam por um túmulo

e exultariam se achassem a sepultura.

23 Por que se concede luz ao homem, cujo caminho é oculto,

e a quem Deus cercou de todos os lados?

24 Por que em vez do meu pão me vêm gemidos,

e os meus lamentos se derramam como água?

25 Aquilo que temo me sobrevém,

e o que receio me acontece.

26 Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso,

e já me vem grande perturbação.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Segundo turno e os evangélicos. Entrevista com Leonildo Silveira Campos


Ótima entrevista concedida por Leonildo Silveira Campos, professor do curso de Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo ( UMESP), ao portal Adital. Confiram :




Apontados como os responsáveis por levarem as eleições presidenciais para o segundo turno, os evangélicos são tema de análises e reflexões sobre os caminhos dessa fase do pleito desde que a apuração dos votos apontou uma disputa entre Dilma Rousseff e José Serra. A IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o professor Leonildo Silveira Campos que discorreu sobre como os evangélicos adentraram a pauta dos debates eleitorais e como este grupo religioso tornou-se um fenômeno sociológico importante na política atual. "Acredito que os evangélicos foram usados como 'bucha de canhão' numa guerra facilmente apresentada a eles numa retórica que sempre foi muito bem aceita: a luta do 'bem' contra o ‘mal’", escreveu.


Leonildo Silveira Campos é graduado em Filosofia, pela Universidade de Mogi das Cruzes, e em Teologia, pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. É mestre em Administração e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, onde atualmente é professor. Também leciona na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. É autor do livro "Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal" Petrópolis - São Paulo, Vozes - Simpósio - Umesp, 1997. Recentemente a revista IHU On-Line publicou uma entrevista com ele sob o título IURD: teatro, templo e mercado.
Confira a entrevista.


IHU On-Line - A questão das religiões, principalmente entre os evangélicos, tem ganhado força nos debates para o segundo turno dessas eleições. Como o senhor analisa a forma como os evangélicos têm entrado nessa discussão?


Leonildo Silveira Campos - O termo "evangélicos" abrange uma boa parcela (de 20% a 30%) da população brasileira. Trata-se de uma população portadora de uma homogeneidade discutível da qual fazem parte pessoas pertencentes às camadas mais pobres (classes "D" e "C") até os que estão na baixa classe média. Os evangélicos mais tradicionais pertencem às classes médias (baixa e média, principalmente). De uma maneira geral os evangélicos têm assumido uma postura conservadora. Em certos meios eles votam de acordo com as solicitações de seus líderes, considerados por alguns deles como os "homens de Deus". Porém, há ocasiões em que essa fidelidade às diretrizes emanadas dessas lideranças não funcionam à contento. Por exemplo: em 2006, a representação evangélica na Câmara Federal caiu pela metade (de pouco mais de 60 para pouco mais de 30 deputados), apesar da solicitação de pastores e bispos para que os fiéis votassem em seus candidatos (muitos deles estiveram envolvidos com escândalos como o do Sanguessuga ou Mensalão).
No primeiro turno, os evangélicos foram atingidos por outra discussão, não por envolvimento de seus representantes em esquemas de corrupção, mas foram "aliciados" ao lado dos que não aceitam o aborto e o casamento de pessoas de mesmo sexo. Acredito que os evangélicos foram usados como "bucha de canhão" numa guerra facilmente apresentada a eles numa retórica que sempre foi muito bem aceita: a luta do ‘bem’ contra o ‘mal’. Em alguns templos evangélicos um telão foi instalado às vésperas das eleições de 3 de outubro, e o pastor projetou um pequeno filme com cenas de aborto, maus tratos de crianças indígenas e outros temas mais, todos explorados por essa nova direita (evangélica ou católica).
Depois, eles afirmavam: "se você quer um país em que um governo ‘iníquo’ irá impor essas coisas, restringindo a liberdade religiosa, votem na Dilma e no PT". Penso que a multiplicação via internet desses boatos influenciou o voto dos evangélicos levando-os a votarem na Marina (evangélica pentecostal) ou no Serra. Os evangélicos que mudaram a direção do voto na última hora podem ter repetido o fenômeno Collor, em 1989. Certamente, se essa mudança tivesse ocorrido no segundo turno, Serra teria se elegido, como Collor o foi em 1989. A questão será: no segundo turno tal retórica conseguirá manter a sua eficiência?


IHU On-Line - O pastor Silas Malafaia participou do programa eleitoral de Serra apoiando o candidato. Ele, inclusive, tem usado seu programa pago em diferentes canais para dizer aos fiéis para não votarem em Dilma. Como o senhor encara isso?


Leonildo Silveira Campos - Silas Malafaia é um conhecido "atirador para todos os lados em que o vento soprar" alavancado pelo dinheiro. Malafaia e o pastor Caio Fábio sempre estiveram digladiando em nome da "verdadeira fé evangélica". Agora que o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), está ao lado do PT, Malafaia entrou em rota de colisão com ele. Em outras épocas, segundo Caio Fábio, a retórica de Malafaia, favorável à IURD e à "liberdade do povo de Deus" (durante a campanha de Collor, de FHC e após o "chute na Santa"), foi estimulada por milhares de reais para os cofres de seu movimento que está inclusive se tornando autônomo em relação a Assembléia de Deus brasileira. Penso que o apoio de Malafaia a Serra não ajuda tanto quanto um posicionamento de Edir Macedo ou de outros líderes neopentecostais a Dilma e ao PT. Mesmo em relação a Assembleia de Deus (um conglomerado de igrejas com cerca de 10 milhões de fiéis) o apoio de Silas Malafaia não carrega tantos votos como ele imagina. A questão é quem detém um capital religioso maior e um maior domínio das massas. Parece que, Macedo e outros pentecostais favoráveis a Dilma, representam a maioria dos votos "de cabresto".


IHU On-Line - Que razões fazem dos evangélicos um fenômeno sociológico importante na política atual?

Leonildo Silveira Campos - Sem dúvida, a visibilidade demográfica, midiática e política dos evangélicos fizeram desse ex-"pequeno povo mui feliz" (como eles cantavam em uma de suas canções) uma confortável e decisiva cifra de aproximadamente 30 milhões de brasileiros. A quase totalidade é alfabetizada, tem um senso de "conversão religiosa" muito aguçada; seus membros foram tocados no passado pelo fundamentalismo, anticomunismo, anticatolicismo, têm um enorme respeito pela palavra de seus líderes, quer sejam eles "pastores", "missionários", "bispos" ou "apóstolos". A maior parte desses evangélicos é pentecostal e participam de grandes empreendimentos religiosos (que os estadunidenses chamaram de "denominações") proprietários de mídias.
Os evangélicos que estão localizados nas camadas com mais emprego, saúde e escolaridade, têm também acesso a rede mundial de computadores. Porém, para alegria de seus adversários, os evangélicos não se unem ao redor de nomes e de bandeiras comuns a todos eles. No entanto, se alguma bandeira, como foi o caso do aborto, for agitada pelos seus líderes, o grau de adesão a este ou aquele candidato será maior. Os evangélicos brasileiros deixaram de ser uma minoria e passaram a se sentir importantes, numérica e socialmente falando, impulsionados por uma autorepresentação de serem o fiel da balança em tempos de eleições. Esse sentimento de que todos, independente da denominação religiosa que faz parte, são membros de uma espécie de "supraigreja", de um agrupamento chamado "povo evangélico" ou um "povo escolhidos por Deus" para fazer a diferença, pode resultar em associações esporádicas, surgindo-se daí significativos resultados eleitorais.


IHU On-Line - Teoricamente, vivemos num Estado laico. Como o senhor vê a dimensão que a religião está tomando nesse debate para o segundo turno?

Leonildo Silveira Campos - Na verdade, a ideia de "Estado laico" no Brasil é muito mais um ideal, segundo alguns burgueses, do que uma construção histórica, social e cultural. A religião da maioria sempre foi um fator de pressão na organização legal e até na forma de organizar o nosso calendário. Desde a separação entre a Igreja e o Estado, após o primeiro golpe militar de nossa história (proclamação da República em 1889); passando-se pelos acordos políticos dos anos 1930, 1940, 1964-1985 ou os da chamada "República Nova" pós-1985; até o recente acordo com o Estado do Vaticano e a Igreja Católica; a meta do "Estado laico" é sempre retomada, discutida e colocada em dúvida por alguns.
Por outro lado, a ofensiva dos cristãos mais conservadores ao redor da luta contra o aborto, casamento ou união entre pessoas do mesmo sexo pode ser vista como uma revanche religiosa contra a secularização da sociedade brasileira. Mesmo assim, toda aspiração por um Estado teocrático é, ao meu ver, um perigo para a existência de um Estado que pretende ser democrático, secularizado ou laico. É curioso que o protestantismo brasileiro, desde a sua inserção no Brasil do século XIX, sempre acusou a Igreja Católica, especialmente os jesuítas de "serem contrários à democracia" de modelo norte-americano. Os evangélicos brasileiros divulgaram muitos textos anticatólicos desde a segunda metade do século XIX, afirmando que o catolicismo era o maior perigo para a democracia liberal norte-americana, que, apesar da desigualdade entre negros e brancos, era vista pelos evangélicos como um modelo de Estado democrático e laico.


IHU On-Line - Os evangélicos podem mesmo ser os responsáveis pela definição deste segundo turno? Que motivos vão conduzir o voto desse grupo religioso?

Leonildo Silveira Campos - Acredito que os evangélicos, se é que todos eles estiveram com Marina e Serra contra Dilma no primeiro turno, não irão conseguir repetir a coesão antiaborto neste segundo turno. Por outro lado, o fator aborto parece ter sido enfraquecido porque ambas as candidaturas, Serra e Dilma, passaram a acenar para esse eleitorado evangélico-conservador que se uniu aos evangélicos-liberais (ecologistas e admiradores da Marina fiel da Assembleia de Deus), levando consigo católicos da renovação carismática também.
Essas alianças resultaram em milhões de votos que, num novo turno, poderão tomar outros rumos. A colisão de forças conservadoras contrárias a Dilma e pró-Serra somente terá sucesso neste segundo turno se algum outro escândalo for explorado pela mídia. Aqui outra força se levanta contra Dilma-PT: a mídia representada pelos grandes grupos financeiros estilo Globo, jornais Estado e Folha de S.Paulo e revistas como Veja, Época e outras mais. Contudo, as dezenas de emissoras de rádio e de televisão, os milhões de exemplares da Folha Universal, os milhares de templos da Igreja Universal do Reino de Deus, estão apregoando, todos os dias, que uma conspiração diabólica foi montada nas profundezas do inferno para impedir a vitória de Dilma. Edir Macedo garante que Deus está com o mesmo PT que em 1989 e 1994 estava sob influências de Satanás.


* Instituto Humanitas Unisinos



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ateus Radicais X Religiosos Delirantes : Chamado à sensatez













Texto de autoria do pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, Rev.Valdinei Aparecido Ferreira, divulgado no site da referida igreja e que será publicado no boletim deste domingo, dia 24 de outubro.

É um texto que eu gostaria de ter escrito!

Chamado à sensatez

Rev. Valdinei Aparecido Ferreira

Já faz algum tempo que assistimos no Brasil a uma espécie de duelo entre um ateísmo militante e uma religiosidade delirante. Ateus militantes pintam os religiosos como ignorantes e obscurantistas; por sua vez, religiosos delirantes devolvem a acusação pintando os descrentes como perversos e inimigos de todo bem. Como se isso já não fosse ruim o suficiente, o embate eleitoral tratou de acirrar ainda mais os ânimos. Ateus e religiosos resolveram duelar no palco montado pela política. Aquilo que já era deplorável tornou-se insuportável.

Entre os que ocupam os extremos – ateus militantes e religiosos delirantes –, existem os cidadãos que se respeitam e convivem harmoniosamente com suas diferenças. Muitas vezes habitam sob um mesmo teto. Noutras vezes, são amigos de longa data. O fato é que a maioria dos brasileiros não está disposta a reinventar as guerras religiosas ou ideológicas. Não queremos ser nenhuma teocracia medieval nem qualquer experimento à moda soviética. Queremos ser o que nascemos para ser – terra abençoada por Deus. E, neste caso, reservando-se o direito de que alguns a considerem apenas "abençoada", sem menção do autor da bênção.

O chamado à sensatez, neste contexto, consiste em lembrar que viver num estado laico significa, sobretudo, que todos são iguais perante a lei e, porque são iguais perante a lei, cada um tem o direito de ser diferente até o limite em que a sua diferença não cause danos à integridade física e moral de outros. A civilização chegou a essa regra áurea de convivência pelo duro aprendizado da intolerância e pelas mãos de humanistas cristãos e filósofos iluministas, muitos deles descrentes. Só para citar um exemplo, Voltaire dizia: "Não estou disposto a morrer por nenhuma crença, mas estou disposto a morrer pelo direito de ter uma crença".

Sou homem religioso e pastor por vocação, mas não sou pessoa de preconceitos. Reconheço que a luz da razão pode brilhar em crentes e ateus, por isso valho-me do velho Karl Marx, em uma passagem do "18 Brumário", para entender o momento que vivemos: "Na primeira vez a história acontece como tragédia, e na segunda, como farsa". Pois bem, parece-me que nossas guerras religiosas e ideológicas entre crentes e ateus tupiniquins, principalmente em períodos eleitorais, têm insuportável cheiro de farsa.

Valdinei Aparecido Ferreira : Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico de Londrina da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Bacharel, Mestre e Doutor em Sociologia pela USP

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Relançado livro histórico



Um dos grandes clássicos da historiografia protestante brasileira; Anais da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo, de autoria de Vicente Themudo Lessa e publicado pela Editora Cultura Cristã foi relançado no dia 06/10 na Primeira IPI de São Paulo .

Realizado no salão social da Catedral, o evento contou com a presença dos reverendos Alderi Souza de Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e organizador da nova edição, Leonildo Silveira Campos, ministro da IPI do Brasil e professor do curso de Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo ( UMESP) e Cláudio Antônio Batista Marra, editor da Editora Cultura Cristã.

O pastor titular da Primeira Igreja, Rev. Valdinei Aparecido Ferreira, abriu o evento ressaltando a importância da obra para a historiografia não apenas do presbiterianismo, mas do protestantismo brasileiro em geral. Na seqüência, a palavra foi concedida ao Rev.Alderi, onde foram apresentadas peculiaridades a respeito do livro e da vida e obra de Vicente Themudo Lessa.

Após a participação do organizador da segunda edição, a palavra ficou por conta do Rev.Leonildo Silveira Campos. De forma acadêmica e ao mesmo tempo didática, Leonildo realizou uma leitura sociológica sobre o texto de Themudo Lessa, ressaltando a importância do conhecimento histórico para a caminhada atual da Igreja de Jesus Cristo em nosso país.

Finalizando o evento, foi aberto espaço para que o público presente adquirisse o livro, sendo o Rev. Alderi, como organizador da obra, bastante requisitado em uma sessão de autógrafos.

Vicente do Rego Themudo Lessa, ministro presbiteriano, fez parte do movimento de nacionalização do presbiterianismo brasileiro, originando, em 1903, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Consagrado pastor evangélico, foi um dos primeiros historiadores do protestantismo em atividade no Brasil. Além do livro relançado, publicou títulos de grande relevância. Dentre várias obras, destacam-se as biografias sobre os reformadores Martinho Lutero e João Calvino.

O público interessado pode adquirir esta verdadeira obra prima através do telefone: XX 11- 3255-6111

ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA



Vicente do Rego Themudo Lessa ( 1874-1939)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os Pais da Igreja e a Justiça Social


A chamada Teologia Patrística compreende numerosas obras escritas entre os séculos I e VIII da Era Cristã, que definiram as doutrinas básicas seguidas pelos três ramos do cristianismo : ortodoxia oriental, catolicismo-romano e o protestantismo. Este nome significa, literalmente, teologia dos pais da igreja. No entanto, a contribuição para a então nascente teologia cristã, segundo especialistas, não ficou restrita ao elemento masculino. Segundo o teólogo estadunidense Christoper A.Hall, várias mulheres tiveram profunda participação nessa etapa decisiva de consolidação do pensamento cristão. É o caso de Marcella e Paula, discípulas de Jerônimo, pai da igreja responsável pela tradução da Bíblia para o latim, popularmente conhecida como Vulgata. Segundo Hall, toda a obra de Jerônimo foi realizada sob a influência destas duas mulheres. Infelizmente, com o passar do tempo, a participação da mulher na elaboração da teologia cristã foi sendo suprimida pelo crescente machismo que tomava conta da igreja.

Além de temas importantíssimos, como trindade, divindade, natureza e encarnação de Cristo, os chamados pais da igreja não deixaram de lado a luta por uma ordem sócio-econômica verdadeiramente justa. Como nos dias atuais, esses teólogos viveram em sociedades marcadas por uma forte desigualdade social, em que a exploração do homem pelo homem era comum. Sendo assim, combateram a pobreza através da pregação e de vários escritos.

Protesto veemente

Dentre os vários pais da igreja, nossa atenção estará voltada aos que atuaram no século IV, mais especificamente no contexto oriental. São eles: Basílio Magno, Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo. Nessa época, o cristianismo já estava, politicamente, unido ao império romano. Aquela antiga religião de pobres, escravos, mulheres e crianças agora era custeada e mantida de forma oficial pelo império. A fé cristã, considerada subversiva pelos antigos imperadores pagãos, tornou-se poderosa aliada do poder estatal.

Mesmo sendo oficialmente cristã, Roma manteve toda a estrutura social de tempos anteriores; elevada concentração de renda e terras, regime escravagista e uma enorme massa de pobres livres. Contra essa situação, os pais da igreja protestaram veementemente.

Basílio Magno, também conhecido como Basílio de Cesaréia, região da Capadócia, nasceu em 330 depois de Cristo. Oriundo de família cristã, foi ordenado sacerdote em 364, sagrando-se bispo seis anos depois. Lutou de forma dura contra o arianismo, linha teológica que afirmava que Cristo seria apenas a maior criatura de Deus, portanto, não da mesma substância que Deus Pai. Tal doutrina colocava em dúvida a própria divindade de Cristo. Além do erro ariano, o bispo de Cesaréia foi uma voz profética contra os males sociais de seu tempo. Em sua homilia intitulada “Contra a riqueza”, assim escreveu: "Tais são os ricos; declaram-se senhores dos bens comuns que eles roubaram só porque são os primeiros ocupantes. Se cada qual não guardasse para si senão aquilo que é requerido para suas necessidades comuns, deixando para os indigentes o supérfluo, tanto a riqueza como a pobreza seriam abolidas”. Para Basílio, a separação entre ricos e pobres é fruto da ganância dos primeiros, não sendo uma ordem natural.

Gregório de Nazianzo nasceu entre 329 e 300. Filho do bispo de Nazianzo, era amigo de Basílio Magno. Contra sua vontade foi indicado pelo mesmo Basílio bispo da pequena cidade de Sassima. Ótimo orador mudou-se para Constantinopla, onde usou seu talento contra o arianismo. É de sua autoria a obra “Cinco discursos teológicos sobre a trindade”.

Apregoando uma sociedade baseada na igualdade primitiva, deixou o seguinte escrito:

“Imitemos este lei sublime e primeira de um Deus que faz cair chuva sobre os justos e sobre os maus e faz com que o sol se levante sobre todos os homens. Às criaturas que vivem sobre a Terra, ele concede imensos espaços, fontes, rios, florestas. Para as espécies aladas ele criar o ar, e a água para a fauna aquática. Fornece a cada um todo o necessário para a subsistência. E seus dons não caem nas mãos dos fortes, não são medidos por lei, nem repartidos entre estados. Tudo é comum, tudo existe em abundância. Quando os próprios homens amontoaram em seus cofres ouro, prata, diamantes e coisas do gênero, então uma louca arrogância endureceu suas feições. Eles não refletem sobre o fato de que pobreza e riqueza, condição livre e servil, além de outras categorias semelhantes chegaram tarde demais entre os homens e se propagaram como epidemias, trazidas pelo pecado do qual eram invenções”.

Comunismo Cristão

Segundo Gregório, a ordem social estabelecida por Deus nos primórdios da criação equivale à ordem encontrada na natureza. Tudo seria comum, nenhuma lei, nenhum estado seriam tutores de propriedades confinadas nas mãos de uma minoria. A distinção entre rico e pobre, patrão e empregado, era fruto do pecado que se encontra no seio da humanidade, não fazendo parte dos planos do Deus trino. Portanto, não seria errado considerar que, para Gregório, uma espécie de comunismo cristão seria a ordem social mais justa.

Inúmeros outros escritores patrísticos seguiram este pensamento. João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, chegou a formular a seguinte questão: “Diz-me uma coisa; donde achas que provém à riqueza? Tu mesmo de quem a recebeste? Do avô, dirá alguém, ou do pai. Poderás tu, voltando às gerações, provar que sua posse é justa? Não poderias, porque seu principio e sua raiz são necessariamente o fato de alguma injustiça. Porque Deus no começo não fez um rico, outro pobre, deu a todos a mesma terra. Sendo assim, por que possuis vários alqueires de terra, sendo que seu vizinho nada tem?”

Comentário duro, mas verdadeiro. Que a Igreja de Cristo no presente século, além de suas obras de beneficência e ação social, mirando-se no exemplo dos pais da igreja, levante sua voz contra esta ordem capitalista desumana, que produz miséria e desigualdade.


ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA


Fontes :


Os Padres da Igreja- Séculos IV- VIII- Volume Dois- Michel Spanneut- Loyola

Lendo As Escrituras com os Pais da Igreja- Christopher A.Hall- Ultimato