segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Simone Weil, a filósofa da Graça


Ainda bastante desconhecida no Brasil, principalmente no meio evangélico, a vida e obra da filósofa francesa Simone Weil são um testemunho contumaz do poder e eficácia da graça divina.

Nascida em Paris, em 3/2/1909, foi criada no seio de uma família judia claramente agnóstica. Seu pai, Bernard, um médico de origem alemã, e sua mãe, Salomea Reinherz, formavam um casal bastante feliz e harmonioso.

Junto com seu irmão André, que posteriormente se tornaria um matemático de renome, Simone cresceu em um lar absolutamente indiferente a assuntos religiosos. No lugar das histórias do povo hebreu narradas no Antigo Testamento, os irmãos Weil foram introduzidos ao mundo dos contos e fábulas dos conhecidos escritores alemães, os irmãos Grimm, e na rica mitologia grega. O amor à leitura era tão grande que, aos cinco anos, Simone já tinha aprendido a ler, tendo escrito, com apenas 10 anos, sua primeira obra, um pequeno conto chamado “Os duendes do fogo”.

Inteligência precoce, a jovem judia parisiense passou por uma grande crise interna, cobrando a si própria e considerando seus conhecimentos insuficientes. Não obstante, com 15 anos obteve seu bacharelado em filosofia, tendo passado mais 3 anos em intensa preparação acadêmica, a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos filosóficos na renomada Escola Superior de Paris. Este período, sob a orientação do pensador Emile Chartier, seria fundamental para toda a futura existência de Simone. Além de Platão, Descartes, Kant, Hegel e Marx, a até então estudante não religiosa teria seus primeiros contatos com a história das grandes religiões mundiais. Foi, também, uma das primeiras mulheres a se graduar em tão prestigiosa instituição.

Em 1931, foi nomeada professora de filosofia em uma escola para moças na cidade de Le Puy. Refletindo o recente interesse adquirido por assuntos religiosos, Simone escreveu a seguinte carta a seus pais: “Peço-vos enviar-me o Novo Testamento em grego que está em minha biblioteca. Foi o passo inicial da atuação da graça divina em sua vida. Ao mesmo tempo, experimenta inúmeros problemas de saúde, sendo a enxaqueca um mal que iria acompanhá-la até seus últimos dias.

Neste período como professora, Simone iniciou seu trabalho político. Acompanhou de perto o sofrimento dos operários da pequena Le Puy. Ingressando no movimento sindical, foi a principal organizadora de uma greve geral que iria paralisar toda a cidade. Como resultado, foi convidada a se retirar.

Aproveitando o período de férias de verão, Simone viaja até a Alemanha, onde presenciou o crescimento do nazismo. Foi uma das primeiras pessoas, em 1932, a denunciar a barbárie que tomou conta de toda a Alemanha, assim como a passividade dos social-democratas e o estranho silêncio dos comunistas stalinistas. De volta à França, continuou seu trabalho como professora em Auxerre, Roanne e Saint-Etienne, nesta última, dando aulas gratuitas aos mineiros.

Consciente de que sua atuação como professora seria insuficiente para fazê-la compreender a vida real de um operário, Simone licenciou-se do magistério e ingressou, em 1934, no corpo de funcionários da Renault, conhecida fábrica de automóveis franceses. Devido à sua frágil saúde, não suportou o pesado ritmo da linha de montagem, abandonando este projeto. Após retomar, a contragosto, a docência na cidade de Bourges, dedicou parte de seu tempo ao trabalho agrícola em uma pequena fazenda da região. Agora conhecia, na prática, a exploração cometida contra operários e camponeses.

Insatisfeita com o crescimento do fascismo na Europa, alistou-se, em 1936, como voluntária em uma brigada anarquista na guerra civil espanhola. Lá, teve sua grande decepção com a natureza humana. Presenciou cenas de barbárie praticadas não apenas por fascistas, mas pelos defensores da liberdade: anarquistas, comunistas e republicanos em geral. Completamente despreparada para a vida militar, foi resgatada por seus familiares.

Estimulada pelos pais, iniciou uma viagem que alterou completamente o rumo de sua vida. Passando pela Itália, Simone participou de cerimônias religiosas nas grandes catedrais, sendo tocada pela beleza do cristianismo. Começou a enxergar uma beleza “mística” nas obras renascentistas. Visitando a pequena cidade de Assis, uma grande experiência seria o marco inicial de sua conversão ao cristianismo. Ao entrar na pequena capela reformada por Francisco de Assis no século XIII, a agnóstica Simone foi tomada por um sentimento indescritível. “Algo mais forte que eu me obrigou, pela primeira vez na minha vida, a me por de joelhos e orar, narra a filósofa em escritos posteriores. Foi o início de um processo de descoberta do Cristo vivo, processo este não buscado por si própria, mas fruto da misteriosa e irresistível graça de Deus.

De volta a seu país, reiniciou o magistério na pequena cidade operária de Saint-Quentin. Ao mesmo tempo, devora parte da Bíblia, principalmente os livros de Jó, Isaías e Daniel, assim como todo o Novo Testamento em grego. Em abril de 1938, sua jornada espiritual chegou ao ápice. Durante a semana santa, Simone participou das cerimônias realizadas na abadia católica de Solesmes. A solene liturgia, o silêncio e os cantos a tocaram profundamente. “Senti (sem estar absolutamente preparada para tanto, uma vez que jamais li os místicos) uma presença mais pessoal, mais certa, mais real do que a de um ser humano, inacessível aos sentidos e à imaginação, análoga ao amor que transparece do mais terno sorriso de ser amado. A partir daquele momento, o nome de Deus e de Cristo se entrelaçaram de modo cada vez mais irresistível aos meus pensamentos”. Tal experiência foi à confirmação do fato ocorrido em Assis.

Agora como cristã, continua sua intensa leitura bíblica. Iniciou uma bela e fecunda amizade com o padre católico-romano Joseph Marie Perrin e com leigos católicos e evangélicos. Neste mesmo período, inúmeras experiências místicas a marcaram. Ao mesmo tempo, não abandonou sua luta pela justiça, continuando a denunciar as mazelas do capitalismo, o autoritarismo do regime soviético e o crescimento do nazi-fascismo.


Apesar de cristã convicta, recusou-se a receber o batismo oferecido pelo simpático padre Perrin por não concordar com a doutrina romana, que considerava a verdadeira igreja de Cristo uma instituição centralizada em Roma. Mesmo de forma inconsciente, Simone fazia eco ao tradicional conceito protestante de que a igreja cristã não está restrita a uma denominação, mas sim no conjunto de todos os crentes. Fora isto, sentia que sua missão deveria ser exercida fora dos muros da igreja, entre aqueles que não faziam parte da igreja oficial.

Com a queda da França diante da Alemanha nazista, Simone, pelo fato de ser judia, foi excluída do magistério. Passou algum tempo reclusa em uma empresa agrícola, onde uniu o trabalho à oração. No entanto, a situação para judeus na França ocupada tornou-se insustentável. Em 14/5/1942, junto com seus pais, imigrou para Nova York. Lá chegando, vive uma rica experiência cristã ecumênica. Além de participar vividamente das atividades dos católicos exilados franceses, enriqueceu sua espiritualidade com os batistas negros nos subúrbios da grande metrópole estadunidense.

Após breve período nos EUA, mudou-se para Londres, Inglaterra, onde participou ativamente da resistência francesa, sendo correspondente do jornal “France Libre”. Sua saúde piorou gradativamente, sendo acometida por uma tuberculose. Faleceu no dia 24/8/1943, no sanatório Ashford, com apenas 34 anos de idade. Segundo alguns biógrafos, Simone recebeu, em seu leito de morte, o sacramento do batismo das mãos de uma mulher leiga, sua amiga Simone Deitz.

A vida e a obra de Simone Weil são verdadeiros resumos da forma graciosa e soberana da atuação divina. Sem qualquer propensão a religiosidade, Simone foi atraída para Cristo. Sem deixar de lado o conhecimento, tanto teológico como filosófico, a jovem francesa deu prioridade à comunhão íntima com Deus. Tal comunhão não se contentou com a mera contemplação, mas exigiu uma atuação real e contundente. Uma vocação neste mundo.

Fiel à doutrina da cruz, a filósofa, militante política e cristã Simone Weil nos ensina que Deus se faz conhecido no sofrimento, nas vicissitudes, e não em uma vida de prazer e prosperidade. Em resumo, encontramos nesta singular personalidade uma feliz filósofa da graça.

Simone Weil por ela mesma:

Há indivíduos que procuram elevar sua alma como um homem que salta sempre com os pés juntos, na esperança de que a força de saltar cada vez mais alto consiga, um dia, em vez de sempre cair, subir até o céu. Porém, não podemos dar sequer um passo em direção ao céu; a direção vertical está fechada para nós. Mas, se fitarmos demoradamente o céu, é Deus que desce e nos arrebata”.

A amizade não se procura, não se sonha, não se deseja; se exerce
!”

Fonte: Abismos e Ápices, Giulia Paola Di Nicola e Attilio Danese, Edições Loyola.

POR ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

5 comentários:

  1. Sou muito fã dela!

    Tem um outro livro muito bacana sobre ela, "A força e a fraqueza do amor", de Maria Clara Bingemer.

    Abraços

    ResponderExcluir
  2. Excepcional.
    Parabéns pelo texto, André.

    ResponderExcluir
  3. Felizmente Simone emcontrou a Graça atravéz da Graça pura e não atravéz da religião. Se assim fosse poderia te-la feito escrava de dogmas sem vida, no entanto ela pode encontrar Deus em tudo o que é belo nas religiões Cristãs. Sim, porque não se pode dizer que não exista nada de belo e artístico nos rituais religiosos.
    Muito bom André!

    ResponderExcluir
  4. Companheiros, muito obrigado pelos elogios. Infelizmente, a obra de Simone Weil é bastante desconhecida em nosso país.

    Tenho um livro de autoria da própria Weil, chama-se " Espera de Deus", que foi publicado pela editora portuguesa Assírio & Alvim.

    Comprei, sob encomenda, na Livraria Cultura, aqui em São Paulo. Além de sair relativamente cara, demorou muito. Mas valeu a pena.

    Abraços

    ResponderExcluir