terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Estou no Twitter. Grande porcaria......


Amigas e amigos, me rendi. Acabei criando um perfil no twitter. Desejando, façam parte de minha lista de amigos e me ajudem no manuseio deste negócio! Não manjo simplesmente nada!

Abaixo, meu perfil ;

http://twitter.com/andre_sp_75

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Jürgen Moltmann, um cristão reformado falando sobre quase tudo


Em 2009, participei do colóquio teológico de minha vida. Esteve presente na Universidade Metodista de São Paulo, Jürgen Moltmann, importante teólogo reformado alemão.

Moltmann faz parte daquela safra indispensável de teólogos alemães. Desconhecer sua obra é desconhecer todo o pensamento teológico contemporâneo.


Abaixo, estou republicando uma entrevista relativamente velha, datada da época em que o alemão esteve no Brasil. No entanto, como fã assumido do “teólogo da esperança”, não poderia deixar de postá-la.





Do alto de seus 82 anos de vida, o escritor, pastor e professor Jürgen Moltmann concedeu uma entrevista a CRISTIANISMO HOJE durante esta sua segunda – e, provavelmente, última – estada no país. Ele falou aos participantes de um congresso de teologia e lançou o livro Testamento teológico para a América Latina.


CRISTIANISMO HOJE: O senhor diz que esta sua viagem ao Brasil é a apresentação de seu "testamento teológico" para a América Latina. Qual seria a principal herança de sua obra?


JüRGEN MOLTMANN: O debate sobre a esperança. Precisamos de fé, esperança e amor; mas destaco que é necessário aplicar a esperança não somente na eternidade, mas também exercitá-la para que cause efeitos nos dias de hoje. A maioria dos cristãos está aguardando o céu, e não uma nova Terra, de onde brote justiça.


CH: Essa é sua proposta a partir do livro Teologia da Esperança: uma abordagem da esperança que fuja ao sentimento de resignação. Então, ela é uma força capaz de transformar o mundo?


JURGEN MOLTMANN: Exatamente. Nos tempos em que vivemos, presenciamos milagres e sinais, certamente não feitos por teólogos, mas por Deus. Acompanhamos o fim do appartheid na África do Sul e muitas outras revoluções democráticas que deixaram para trás formas de ditadura política e militar. Agora, estamos acompanhando a queda do capitalismo, tendo a oportunidade para viver em um mundo mais livre e justo. A maioria dos crentes pensa que espiritualidade é orar; porém, no Novo Testamento, aprendemos que é preciso orar e vigiar. Precisamos de uma espiritualidade dotada de sentidos – ou seja, em uma forma bem figurativa, ao invés de fechar os olhos, temos de abri-los para orar. Uma Igreja desconectada do cotidiano não tem futuro, só passado.


CH: O senhor acha que a crise atual é a derrocada do capitalismo, assim como o colapso do socialismo no fim dos anos 1980?


JURGEN MOLTMANN: Bem, não estou satisfeito com esse capitalismo. Espero que consigamos pôr em prática um capitalismo mais social, ou seja, um capitalismo em que o Estado regule de forma mais efetiva a economia. Há um bom tempo, a Alemanha vem tentando fazer isso: desenvolver uma economia social e ecológica, para que o mercado seja para o ser humano e o ser humano não seja sacrificado pelo mercado.


CH: Isso tudo está relacionado à Teologia Política, ou Teologia Pública, que o senhor inaugurou e sempre destacou?


JURGEN MOLTMANN: Sim. Isso inclui refletir o aspecto público e a justiça no Reino de Deus. A teologia pública é a política pensada teologicamente e a teologia na abordagem política; por outro lado, também é a cultura num aspecto teológico e a teologia sob o aspecto cultural. Ou seja, a teologia dialoga com a Igreja e a Igreja dialoga com a teologia. Porém, o futuro da Igreja e da teologia é o Reino de Deus, e isso tem de ser o centro de tudo. Estamos numa globalização sem globo, ou seja, a Terra não tem voz nem vez nesse processo. Precisamos de uma nova política da Terra, uma nova economia da Terra, isto é, uma nova ligação com o organismo vivo que a Terra representa.


CH: Logo, a atuação do teólogo vai muito além da Igreja...


JURGEN MOLTMANN: Claro que sim! Eu, por exemplo, já fui convidado para ser teólogo em uma faculdade de medicina.


CH: O senhor enfatiza muito a questão de um suposto sofrimento de Deus. Qual é o valor da cruz e da morte de Cristo para Deus nessa linha de pensamento?


JURGEN MOLTMANN: Deus sofre para estar próximo de todos os que sofrem por solidariedade e amor. Cristo deixou tudo para procurar aqueles que foram deixados por todos. É a nova forma de uma cristologia de solidariedade – e, como a maioria das pessoas são vítimas e não opressores, precisamos de uma cristologia que pronuncie claramente que Cristo está ao lado das vítimas e que Deus fará justiça.


CH: Paulo Freire, famoso educador brasileiro, dizia que “ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho. Os homens se libertam em comunhão”. Esta frase, refeita de acordo com a sua teologia, talvez ficasse algo assim: “Ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho. O homem se liberta na comunhão cristã que experimenta Deus no outro”. É nisso que o senhor acredita?


JURGEN MOLTMANN: Isso me lembra Dostoiévski, que dizia que “o ser humano deve se libertar por conta própria”. Passei pela experiência de ser um prisioneiro de guerra por três longos anos e fui liberto por Cristo. Não tive condição de libertar-me a mim mesmo. Paulo Freire tem uma posição humanista. Eu sou um teólogo cristão, apesar de contra a minha própria vontade, pois queria estudar Física e Matemática. Mas eu respeito os humanistas que querem se libertar por conta própria.


CH: Então é possível crer em Deus após Auschwitz?

JURGEN MOLTMANN: Sem dúvida. O texto O Deus crucificado é minha resposta a Auschwitz e ao horror que vivi na guerra. A minha pergunta é: em quem se deve crer depois de Auschwitz, senão em Deus?


CH: A Teologia da Libertação teve muita força aqui na América Latina, mas o senhor foi um dos poucos teólogos europeus a dialogar com essa teologia. Enfrentou muitas reações por isso?


JURGEN MOLTMANN: A maioria dos colegas não abraçou a Teologia da Libertação simplesmente porque eram ocupados e preocupados demais com suas teologias denominacionais e confessionais. Não lhes sobrava tempo para dialogar com o mundo, com as teologias ecumênicas e tudo o mais que acontecia ao redor. A resposta mais infame que já escutei sobre isso foi algo como “a teologia feminista é para a mulher, e a teologia negra é para os negros”. Eles não aceitavam o desafio que o outro pode trazer para o diálogo, aprofundando a sua própria teologia.


CH: O que dizer acerca do fundamentalismo?


JURGEN MOLTMANN: Os fundamentalistas nas igrejas protestantes deveriam ler e estudar a Bíblia e tentar entender o que temos de viver. Os bispos do Opus Dei deveriam ler os textos do Concílio Vaticano II. Eles estão esquecendo daquele legado, e isso é uma vergonha! E também é uma vergonha que os protestantes estejam lendo a Bíblia como se fosse o Corão. Deus se tornou em Cristo não um livro, mas sim, um ser humano. Por outro lado, os fundamentalistas também são seres humanos e precisam ser acolhidos, assim como as crianças, que não podem crescer sem o amor e respeito dos seus próprios pais. Eu não aconselho falar com fundamentalistas sobre o fundamentalismo, mas sobre experiências de vida e de como eles administraram os sofrimentos, desafios etc.


CH: O senhor foi colega de docência do teólogo alemão Joseph Ratzinger, hoje o papa Bento XVI. Conte sobre essa experiência.

JURGEN MOLTMANN: Ratzinger passou por uma experiência traumática em 1968, época da revolução estudantil. Na época, ele passou por um medo apocalíptico, com uma idéia fixa no diabo – destaco que ele escreveu isso em sua biografia, portanto não se trata de difamação. E desde então, ele tenta combater o marxismo ateísta. Só que esse marximo não existe mais na Europa. Na sua última encíclica, a da Esperança, ele gastou três páginas para matar o marxismo. E eu lhe escrevi uma carta dizendo: “Você matou um cadáver”. É por isso que Bento XVI persegue tanto os teólogos da libertação, porque, segundo sua concepção, isso se trata de marxismo. Gente como Jon Sobrinho e Leonardo Boff não são marxistas, isso é uma besteira!


CH: E o que o senhor pensa sobre o papado?


JURGEN MOLTMANN: Não o considero uma instituição evangélica.


CH: Quais os seus livros prediletos?


JURGEN MOLTMANN: A Bíblia, especialmente o Antigo Testamento; O princípio da esperança, de Ernst Bloch; e A dogmática da Igreja, de Karl Barth. Mas este último tem cerca de 8 mil páginas... [risos].


CH: A despeito de todos os adjetivos que lhe devotam, como o senhor gostaria de ser lembrado?


JURGEN MOLTMANN: Sou apenas um simples cristão que busca entender sua fé. Nada além disso.




sábado, 12 de fevereiro de 2011

Humor futebolístico


Leitoras e leitores simpáticos ao Sport Clube Corinthians Paulista, me perdoem, mas não resisti....

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Anselmo Borges : Conviver com a natureza e os animais



Considero Tribo de Jacob, blog católico lusitano, um dos melhores espaços virtuais dentro do universo cristão em língua portuguesa. Feito com muito esmero pelo meu amigo Jorge Pires Ferreira, divulga notas interessantíssimas de uma forma compacta e clara, facilitando a leitura.

Além da diversidade temática, o endereço católico mantém uma linha ecumênica bastante interessante. Recomendo a visita.

Abaixo, estou publicando um texto que gostei muito. Espero que também apreciem


Por Anselmo Borges


Um amigo jesuíta, Juan Masiá, que vive há trinta anos no Japão, contou-me uma história muito significativa, passada numa paróquia japonesa. O missionário estrangeiro começou a notar que os paroquianos deixaram de frequentar a missa por ele celebrada. Intrigado, decidiu informar-se discretamente. Foi recebendo respostas evasivas, até que alguém ganhou coragem e lhe disse: "É por causa do gato." Achou estranho, embora se lembrasse de que uns meses antes tinha agarrado pelo rabo um gato vadio que andava pela cozinha e o tinha atirado contra a parede. No entanto, não via razão para o afastamento dos paroquianos. Quando tentaram explicar-lhe, disse-lhes, indignado: "Tanto esforço para ensinar-vos que o ser humano tem alma e os animais não e agora ficais chateados por causa da morte do gato, um animal irracional?!" Mas os cristãos responderam-lhe: "O problema não é a alma do gato, se tem ou não tem alma. O problema é você. Que terá no íntimo do coração, se foi capaz de a sangue frio esborrachar o gato contra a parede?"

Ainda se continua a escrever aqui e ali: "proibida a entrada de animais", "no animals", esquecendo que os seres humanos também são animais. É necessário tomar consciência de que a humanidade não se pode pensar isolada, pois fazemos parte da comunidade natural da vida, em relação com animais e plantas, respirando o mesmo ar, tendo a mesma exigência de alimentação e água, na mesma terra e sob o mesmo céu, o que implica, contra o monopólio antropocêntrico explorador e dominador, um paradigma holístico de existência.

O cristianismo é agora apresentado como sendo um dos responsáveis pelo antropocentrismo arrogante e pela crise ecológica, por causa da ordem de Deus aos seres humanos no Gênesis: "Dominai a terra." Mas, como reconhecem os exegetas, trata-se de uma interpretação errada da Bíblia, já que o que lá se encontra nada tem a ver com domínio despótico, mas apenas com guardar e cuidar da Criação, contribuindo para o seu aperfeiçoamento responsável, no quadro de um desenvolvimento harmónico do conjunto de todas as criaturas. Aliás, a aliança de Deus, depois do dilúvio, simbolizada pelo arco-íris, inclui todas as criaturas.

Há dois extremismos a evitar. O antropocentrismo tecnocientífico moderno, que vê o homem fora da natureza e o coloca na posição de sujeito objectivante e explorador da natureza, como se esta não tivesse valor próprio e se reduzisse a um reservatório de energias a dominar. A chamada deep ecology, que invoca uma natureza divinizada, encerra o homem na totalidade naturalista, cósmico-biológica, esquecendo a sua singularidade única de pessoa.

Assim, independentemente do debate sobre os direitos dos animais, a analisar em artigo próximo, não há dúvida de que temos obrigações para com eles, concretamente quando se reflecte no seu sofrimento. São inadmissíveis a tortura e a crueldade bem como sofrimentos desnecessários. Neste contexto, é necessário pôr em causa, por exemplo, as touradas.

Mesmo Kant, que só reconhecia direitos às pessoas como fins em si, referiu a insensibilidade face aos animais como reveladora de desumanidade e anti-educativa, tendo escrito: "Aquele que se comporta cruelmente com os animais possui também um coração endurecido com os humanos", de tal modo que "se pode conhecer o coração humano a partir da sua relação com os animais". Admitiu alguma experimentação com animais, mas opôs-se à experimentação irresponsável, concretamente à vivissecção.

Sobre esta problemática lê-se no Tratado de Lisboa: "Na definição e aplicação das políticas da União nos domínios da agricultura, da pesca, dos transportes, do mercado interno, da investigação e desenvolvimento tecnológico e do espaço, a União e os Estados membros terão plenamente em conta as exigências em matéria de bem-estar dos animais, enquanto seres sensíveis, respeitando simultaneamente as disposições legislativas e administrativas e os costumes dos Estados membros, nomeadamente em matéria de ritos religiosos, tradições culturais e património regional".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Contribuição feminina no moderno pensamento cristão



Jesus Cristo tinha um comportamento completamente revolucionário em seu relacionamento com as mulheres de sua época. Ao contrário de parcela significativa dos líderes religiosos, políticos e filosóficos influentes de seu contexto histórico, convivia com o gênero feminino de forma igualitária. São numerosas as passagens bíblicas que revelam diálogos surpreendentes entre Cristo e personagens femininas, sendo que, em determinados casos, o próprio mestre deixou-se persuadir pelos argumentos de desprezadas mulheres, mudando, até mesmo, de opinião (Mc 7.24-30). Os quatro evangelhos narram a participação decisiva de mulheres no ministério de Jesus, destacando-se a figura de Maria Madalena, considerada por verdadeiros gigantes da teologia cristã, como Gregório de Antioquia e Pedro Abelardo, apóstola dos apóstolos.

Ainda no início do movimento cristão, a participação feminina, até mesmo em postos de comando e influência, foi atestada pela própria Bíblia. Personagens como Lídia, Febe, Priscila, Junia, Evódia, Síntique comprovam esta tese.

No entanto, com o passar do tempo e com a institucionalização do cristianismo, este absorveu boa parte do machismo predominante na sociedade como um todo. Desta forma, a influência feminina na jovem igreja cristã foi, gradativamente, relegada a segundo plano.

Durante todo o período medieval e até mesmo na época da reforma protestante, raras vozes femininas foram ouvidas. Pregadoras leigas valdenses e posteriormente calvinistas, assim como místicas católicas, como Teresa de Ávila, compunham uma minoria bastante reprimida.

Foi apenas no final do século XIX que o pensamento teológico feminista deu seus primeiros passos, tendo como ponto de partida o projeto desenvolvido pela presbiteriana estadunidense Elisabeth Cady Stanton, denominado A Bíblia da Mulher. Importante líder abolicionista e feminista em seu país, Cady Stanton, como cristã, não aceitava a interpretação machista das Escrituras. Assim, com outras mulheres versadas nas línguas bíblicas originais, publicou, entre 1895 e 1898, dois volumes voltados à interpretação do texto sagrado sob um prisma feminino. A Bíblia da Mulher tinha como meta ressaltar a importância do sexo feminino na história sagrada, assim como reinterpretar de uma forma libertária os textos considerados machistas e preconceituosos.

Após este primeiro estágio, a assim chamada teologia feminista seguiu linhas diferentes. Algumas teólogas abandonaram por completo o cristianismo por considerá-lo incompatível com a luta em prol da emancipação feminina. É o caso da anteriormente católica Mary Daly, que afirma em sua obra “Além de Deus, o Pai”, que a linguagem fundadora do cristianismo é voltada, exclusivamente, para a manutenção do poder masculino. Outras, como Carol Christ, Elga Sorge e Elizabeth Gould Davis, decidiram retornar às antigas tradições pagãs, onde o culto a divindades femininas era bastante influente. Também houve uma revitalização por parte destas pensadoras da antiga forma de magia celta denominada Wicca, sendo as principais divulgadoras Miriam Simos e Zsuzsanna Budapest.

Não obstante esta radical ruptura com a tradição judaico-cristã promovida por algumas religiosas, parcela majoritária das teólogas permaneceu dentro do cristianismo, tendo como meta continuar o trabalho iniciado por Cady Stanton e suas colegas. Dentre este grupo predominante, destacam-se os nomes de Rosemary Ruether e Elisabeth Fiorenza.

Ligadas ao catolicismo romano, escreveram teses fundamentais para que a teologia feminista cristã atingisse a maturidade. Dentre os vários livros de autoria de Elisabeth Fiorenza, podemos destacar o clássico “Em Memória Dela”, onde o importante papel histórico exercido pelas mulheres na formação do cristianismo é relembrado. Já a principal obra de Rosemary Ruether, “O Sexismo e a linguagem sobre Deus”, procura oferecer uma teologia sistemática cristã com claro enfoque feminista.
Porém, como já foi comentado, o pensamento teológico feminista cristão teve seu nascedouro dentro do protestantismo. Desta forma, vamos nos ater a algumas mulheres de confissão evangélica responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento cristão ao redor do mundo.

Suzanne de Diétrich (1891-1981)

Não podemos considerar esta francesa como uma teóloga feminista, já que sua teologia não tinha como foco primordial a situação da mulher. Mas a importância desta leiga vinculada à Igreja Reformada de seu país prova de maneira cabal a dedicação de várias mulheres no desenvolvimento do cristianismo.

Portadora de uma grave deficiência física que dificultava sua locomoção, esta engenheira eletricista teve um papel fundamental na articulação dos movimentos estudantis cristãos na primeira metade do século XX, chegando a fazer parte do Comitê Executivo da Federação Mundial de Estudantes Cristãos. Entusiasta do movimento ecumênico foi, por um bom tempo, instrutora do Instituto Ecumênico Bossey, vinculado ao Conselho Mundial de Igrejas. No aspecto teológico, a grande contribuição de Suzanne pode ser percebida na forma como a mesma interpretava a Bíblia Sagrada. Claramente influenciada pela teologia dialética de Karl Barth e Emil Brunner, procurava transmitir a mensagem central do texto purificada das meras tradições humanas. Deixou verdadeiras pérolas no tocante a interpretação bíblica. Dentre vários livros, podemos destacar: “A Descoberta da Bíblia”, “Uma Palavra Sempre Viva”,Como ler a Bíblia hoje?” e “O Desígnio de Deus”.

Jane Dempsey Douglas (1933- )

Teóloga estadunidense, é professora emérita de teologia histórica na Universidade de Princeton (EUA). Vinculada à Igreja Presbiteriana dos EUA (PCUSA), foi presidente da Aliança Mundial de Igrejas Reformadas entre 1990-1997. Sua produção literária e acadêmica é bastante vasta, estando focada em uma interpretação contemporânea da tradição reformada, em questões sociais e, principalmente, no relacionamento entre mulheres e o cristianismo. Dentre suas várias obras, é digna de destaque “Mulheres, Liberdade e Calvino”, onde mostra que o reformador francês foi o mais aberto e progressista no tocante ao papel da mulher na sociedade e na igreja. Segundo Jane Douglas, Calvino considerava as restrições paulinas a respeito da atuação feminina na igreja vinculadas a um determinado contexto social. Assim, deveriam ser abolidas em um futuro próximo.

Elsa Tamez (1951- )

Metodista mexicana, é uma das principais expoentes da Teologia da Libertação Latino-Americana. Reside e trabalha na Costa Rica, exercendo seu ministério como biblista e professora na Universidade Bíblica Latino-Americana, da qual foi reitora por vários anos. É casada e mãe de dois filhos. Doutora em teologia pela Universidade de Lausanne, Suíça, foi membro com destaque na comissão de educação teológica do Conselho Mundial de Igrejas, contribuindo com numerosas organizações, como o Conselho Latino-Americano de Igrejas, Conselho Metodista Mundial e a Associação de Teólogos do Terceiro Mundo. Como teóloga da libertação, Elsa se divide entre a temática social e a questão de gênero, sendo o feminismo cristão assunto constante em seus escritos.

Seu livro “As Mulheres no movimento de Jesus, o Cristo” demonstra a atitude libertadora de Jesus para com as mulheres e a posição de destaque que elas ocuparam nas primeiras comunidades cristãs. Outras obras são dignas de menção: “A Bíblia dos Oprimidos” e “A Hora da Vida- Leituras Bíblicas”, onde a conversão a Cristo não é interpretada de uma forma meramente individual ou moralista, mas como uma radical mudança em prol da vida. Através do processo de conversão, o crente ingressa em um verdadeiro combate contra todo o tipo de opressão, discriminação e injustiça social.

Elaine Storkey (1943- )

Teóloga, filósofa e socióloga inglesa, é uma das principais expoentes do feminismo evangélico. Ligada ao grupo evangélico da Igreja Anglicana Britânica, escreveu, em 1985, “O Que Está Certo no Feminismo”. Nos dizeres de Tony Lane, doutor em teologia pelo London Bible College: “ Elaine insiste num feminismo biblicamente baseado como o terceiro caminho entre o antifeminismo cristão e um feminismo que se separa do ensino bíblico”. O trecho abaixo escrito por Elaine confirma a percepção de Lane:

As feministas cristãs não estão querendo qualquer batalha de poder com os homens. Isto seria estranho à sua agenda. Nem estão querendo construir uma realidade totalmente feminina que lave suas mãos de qualquer envolvimento com o outro sexo. Mas elas não estão felizes simplesmente por se introduzirem num alçapão assinalado mulher e viverem suas vidas de acordo com um jogo de valores culturais determinados e essencialmente não-bíblicos. A mensagem que elas trazem é uma mensagem de libertação, e é para os homens também”.

Além da atividade decisiva destas mulheres em prol da teologia cristã, muitas outras exercem uma profícua missão no campo do pensamento cristão. Em nosso continente latino americano, podemos destacar o trabalho realizado pela pastora presbiteriana cubana Ofélia Ortega, reitora do Seminário Teológico Evangélico de Matanzas e secretária executiva por quase uma década do Programa de Educação Teológica para América Latina e Caribe do Conselho Mundial de Igrejas. No Brasil, onde a teologia feminista cristã ainda engatinha, as metodistas Sandra Duarte de Souza e Tânia Sampaio representam o que de melhor e mais avançado há nesta linha teológica.

Ao contrário do que é pregado por grupos fundamentalistas, o desenvolvimento de uma teologia feminista de cunho claramente cristã, acompanhada por uma crescente participação das mulheres nos mais diversos ministérios ordenados, chegando, muitas vezes, a postos de liderança em muitas denominações, não reflete nenhum tipo de apostasia, mas, sim, o retorno aos tempos iniciais do cristianismo, quando homens e mulheres, seguindo de forma clara o exemplo de Jesus Cristo, exerciam o ministério em pé de igualdade.

Por André Tadeu de Oliveira



A Tradição Reformada - Uma Maneira de ser a comunidade Cristã - John H. Leith (Apêndice G: Ricardo W. Irwin e Eduardo Galasso Faria) Pendão Real.



Maria Madalena - Uma Perspectiva Feminina das Origens Cristãs - Priscila C. Nagatomo - Editora Reflexão.



Dicionário Brasileiro de Teologia - ASTE.



A Teologia do Século XX - Rosino Gibellini – Loyola.



Pensamento Cristão - Da Reforma à Modernidade - Tony Lane - Abba Press.



A Tapeçaria da Teologia Cristã - Gregory C. Higgins –-Loyola.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Simone Weil, a filósofa da Graça


Ainda bastante desconhecida no Brasil, principalmente no meio evangélico, a vida e obra da filósofa francesa Simone Weil são um testemunho contumaz do poder e eficácia da graça divina.

Nascida em Paris, em 3/2/1909, foi criada no seio de uma família judia claramente agnóstica. Seu pai, Bernard, um médico de origem alemã, e sua mãe, Salomea Reinherz, formavam um casal bastante feliz e harmonioso.

Junto com seu irmão André, que posteriormente se tornaria um matemático de renome, Simone cresceu em um lar absolutamente indiferente a assuntos religiosos. No lugar das histórias do povo hebreu narradas no Antigo Testamento, os irmãos Weil foram introduzidos ao mundo dos contos e fábulas dos conhecidos escritores alemães, os irmãos Grimm, e na rica mitologia grega. O amor à leitura era tão grande que, aos cinco anos, Simone já tinha aprendido a ler, tendo escrito, com apenas 10 anos, sua primeira obra, um pequeno conto chamado “Os duendes do fogo”.

Inteligência precoce, a jovem judia parisiense passou por uma grande crise interna, cobrando a si própria e considerando seus conhecimentos insuficientes. Não obstante, com 15 anos obteve seu bacharelado em filosofia, tendo passado mais 3 anos em intensa preparação acadêmica, a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos filosóficos na renomada Escola Superior de Paris. Este período, sob a orientação do pensador Emile Chartier, seria fundamental para toda a futura existência de Simone. Além de Platão, Descartes, Kant, Hegel e Marx, a até então estudante não religiosa teria seus primeiros contatos com a história das grandes religiões mundiais. Foi, também, uma das primeiras mulheres a se graduar em tão prestigiosa instituição.

Em 1931, foi nomeada professora de filosofia em uma escola para moças na cidade de Le Puy. Refletindo o recente interesse adquirido por assuntos religiosos, Simone escreveu a seguinte carta a seus pais: “Peço-vos enviar-me o Novo Testamento em grego que está em minha biblioteca. Foi o passo inicial da atuação da graça divina em sua vida. Ao mesmo tempo, experimenta inúmeros problemas de saúde, sendo a enxaqueca um mal que iria acompanhá-la até seus últimos dias.

Neste período como professora, Simone iniciou seu trabalho político. Acompanhou de perto o sofrimento dos operários da pequena Le Puy. Ingressando no movimento sindical, foi a principal organizadora de uma greve geral que iria paralisar toda a cidade. Como resultado, foi convidada a se retirar.

Aproveitando o período de férias de verão, Simone viaja até a Alemanha, onde presenciou o crescimento do nazismo. Foi uma das primeiras pessoas, em 1932, a denunciar a barbárie que tomou conta de toda a Alemanha, assim como a passividade dos social-democratas e o estranho silêncio dos comunistas stalinistas. De volta à França, continuou seu trabalho como professora em Auxerre, Roanne e Saint-Etienne, nesta última, dando aulas gratuitas aos mineiros.

Consciente de que sua atuação como professora seria insuficiente para fazê-la compreender a vida real de um operário, Simone licenciou-se do magistério e ingressou, em 1934, no corpo de funcionários da Renault, conhecida fábrica de automóveis franceses. Devido à sua frágil saúde, não suportou o pesado ritmo da linha de montagem, abandonando este projeto. Após retomar, a contragosto, a docência na cidade de Bourges, dedicou parte de seu tempo ao trabalho agrícola em uma pequena fazenda da região. Agora conhecia, na prática, a exploração cometida contra operários e camponeses.

Insatisfeita com o crescimento do fascismo na Europa, alistou-se, em 1936, como voluntária em uma brigada anarquista na guerra civil espanhola. Lá, teve sua grande decepção com a natureza humana. Presenciou cenas de barbárie praticadas não apenas por fascistas, mas pelos defensores da liberdade: anarquistas, comunistas e republicanos em geral. Completamente despreparada para a vida militar, foi resgatada por seus familiares.

Estimulada pelos pais, iniciou uma viagem que alterou completamente o rumo de sua vida. Passando pela Itália, Simone participou de cerimônias religiosas nas grandes catedrais, sendo tocada pela beleza do cristianismo. Começou a enxergar uma beleza “mística” nas obras renascentistas. Visitando a pequena cidade de Assis, uma grande experiência seria o marco inicial de sua conversão ao cristianismo. Ao entrar na pequena capela reformada por Francisco de Assis no século XIII, a agnóstica Simone foi tomada por um sentimento indescritível. “Algo mais forte que eu me obrigou, pela primeira vez na minha vida, a me por de joelhos e orar, narra a filósofa em escritos posteriores. Foi o início de um processo de descoberta do Cristo vivo, processo este não buscado por si própria, mas fruto da misteriosa e irresistível graça de Deus.

De volta a seu país, reiniciou o magistério na pequena cidade operária de Saint-Quentin. Ao mesmo tempo, devora parte da Bíblia, principalmente os livros de Jó, Isaías e Daniel, assim como todo o Novo Testamento em grego. Em abril de 1938, sua jornada espiritual chegou ao ápice. Durante a semana santa, Simone participou das cerimônias realizadas na abadia católica de Solesmes. A solene liturgia, o silêncio e os cantos a tocaram profundamente. “Senti (sem estar absolutamente preparada para tanto, uma vez que jamais li os místicos) uma presença mais pessoal, mais certa, mais real do que a de um ser humano, inacessível aos sentidos e à imaginação, análoga ao amor que transparece do mais terno sorriso de ser amado. A partir daquele momento, o nome de Deus e de Cristo se entrelaçaram de modo cada vez mais irresistível aos meus pensamentos”. Tal experiência foi à confirmação do fato ocorrido em Assis.

Agora como cristã, continua sua intensa leitura bíblica. Iniciou uma bela e fecunda amizade com o padre católico-romano Joseph Marie Perrin e com leigos católicos e evangélicos. Neste mesmo período, inúmeras experiências místicas a marcaram. Ao mesmo tempo, não abandonou sua luta pela justiça, continuando a denunciar as mazelas do capitalismo, o autoritarismo do regime soviético e o crescimento do nazi-fascismo.


Apesar de cristã convicta, recusou-se a receber o batismo oferecido pelo simpático padre Perrin por não concordar com a doutrina romana, que considerava a verdadeira igreja de Cristo uma instituição centralizada em Roma. Mesmo de forma inconsciente, Simone fazia eco ao tradicional conceito protestante de que a igreja cristã não está restrita a uma denominação, mas sim no conjunto de todos os crentes. Fora isto, sentia que sua missão deveria ser exercida fora dos muros da igreja, entre aqueles que não faziam parte da igreja oficial.

Com a queda da França diante da Alemanha nazista, Simone, pelo fato de ser judia, foi excluída do magistério. Passou algum tempo reclusa em uma empresa agrícola, onde uniu o trabalho à oração. No entanto, a situação para judeus na França ocupada tornou-se insustentável. Em 14/5/1942, junto com seus pais, imigrou para Nova York. Lá chegando, vive uma rica experiência cristã ecumênica. Além de participar vividamente das atividades dos católicos exilados franceses, enriqueceu sua espiritualidade com os batistas negros nos subúrbios da grande metrópole estadunidense.

Após breve período nos EUA, mudou-se para Londres, Inglaterra, onde participou ativamente da resistência francesa, sendo correspondente do jornal “France Libre”. Sua saúde piorou gradativamente, sendo acometida por uma tuberculose. Faleceu no dia 24/8/1943, no sanatório Ashford, com apenas 34 anos de idade. Segundo alguns biógrafos, Simone recebeu, em seu leito de morte, o sacramento do batismo das mãos de uma mulher leiga, sua amiga Simone Deitz.

A vida e a obra de Simone Weil são verdadeiros resumos da forma graciosa e soberana da atuação divina. Sem qualquer propensão a religiosidade, Simone foi atraída para Cristo. Sem deixar de lado o conhecimento, tanto teológico como filosófico, a jovem francesa deu prioridade à comunhão íntima com Deus. Tal comunhão não se contentou com a mera contemplação, mas exigiu uma atuação real e contundente. Uma vocação neste mundo.

Fiel à doutrina da cruz, a filósofa, militante política e cristã Simone Weil nos ensina que Deus se faz conhecido no sofrimento, nas vicissitudes, e não em uma vida de prazer e prosperidade. Em resumo, encontramos nesta singular personalidade uma feliz filósofa da graça.

Simone Weil por ela mesma:

Há indivíduos que procuram elevar sua alma como um homem que salta sempre com os pés juntos, na esperança de que a força de saltar cada vez mais alto consiga, um dia, em vez de sempre cair, subir até o céu. Porém, não podemos dar sequer um passo em direção ao céu; a direção vertical está fechada para nós. Mas, se fitarmos demoradamente o céu, é Deus que desce e nos arrebata”.

A amizade não se procura, não se sonha, não se deseja; se exerce
!”

Fonte: Abismos e Ápices, Giulia Paola Di Nicola e Attilio Danese, Edições Loyola.

POR ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Minha primeira liturgia


Abaixo, estou publicando minha primeira liturgia. Além de prepará-la, fui o principal celebrante e pregador. Esta liturgia foi à base do culto deste último domingo, dia 16, na Congregação Presbiteriana Independente do Jardim Santa Fé, região oeste da capital paulista. Para minha surpresa, os membros, majoritariamente humildes, já estão habituados a uma liturgia mais trabalhada e rica em simbolismo cristão. Santa Fé é uma prova cabal de que mau gosto litúrgico não possui nenhuma vinculação com camadas socialmente mais humildes.


As leituras bíblicas realizadas no terceiro momento da celebração, denominado “ Momento de Louvor”, foram retiradas do lecionário ecumênico mundial e estão de acordo com o período litúrgico que estamos vivendo, o Tempo Comum.

O Lecionário Ecumênico possui duas finalidades para o culto:


Unir todos os cristãos espalhados pelo mundo, independentemente de sua tradição confessional, através da leitura bíblica.


• Realizar estas leituras tendo como base o calendário litúrgico cristão. O calendário litúrgico é essencial para uma noção pedagógica do culto cristão, pois somos instruídos a respeito da ação da Deus na história humana em diferentes períodos.

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM


COR LITÚRGICA: VERDE

I - Adoração



• Prelúdio/ Conjunto de Flautas
• Convite à adoração: Salmo 117 – Leitura em uníssono
• Hino de Adoração: Ó Rei Sublime – CTP 29
• Oração de Adoração

ll - Contrição


• Leitura Bíblica Alternada: 1João 1. 8- 10
• Hino: Que estou fazendo? CTP – 297
• Oração Silenciosa.
• Litania de Confissão:

Oficiante: Pai Santo, confessamos que temos falhado em amar-te de todo coração, alma e mente. Temos ignorado os teus mandamentos, e nos desviado dos teus caminhos.

Povo: Em tua misericórdia, ouve nossa oração.


Oficiante: Senhor Jesus Cristo, confessamos que não temos amado o nosso próximo como nós mesmos. Temos falhado em servir aos necessitados e em levar a tua história de amor para toda criatura.


Povo: Em tua misericórdia, ouve nossa oração.


Oficiante: Santo Espírito, confessamos que somos lentos em responder ao teu impulso. Preferimos seguir nossa própria vontade, insensíveis à tua presença insistente.

Povo: Em tua misericórdia, ouve nossa oração.


Oficiante: Bendita Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, tem piedade de nós. Perdoa nosso pecado e ressuscita-nos para uma vida nova, a fim de que possamos servir-te e honrar o teu santo nome.

• Hino: A Alegria Está No Coração: CTP- 50

III - Momento de Louvor

• Cântico
• Leitura do Velho Testamento: Isaías 49. 1-7
• Cântico
• Leitura do Novo Testamento: 1 Coríntios 1.1-9
• Ofertório
• Oração de Intercessão

IV - Edificação


• Oração de Iluminação para a Leitura Bíblica
• Leitura Bíblica pelo pregador
• Proclamação da Palavra
• Oração
• Hino: Fortalece A Tua Igreja – CTP 151

V - Serviço e Missão


Afirmação de Fé (Livro Anglicano de Oração Comum, 1549): Creio em Deus, o Pai, que me criou e criou o mundo. Creio em Deus, o Filho, que me redime e redime todos os homens. Creio em Deus, o Espírito Santo, que me santifica e santifica a todos os eleitos de Deus.
• Oração do Pai Nosso
• Moto: “Buscando a Deus e a Felicidade da Família”
• Bênção e Poslúdio / Conjunto de Flautas
• Avisos e Agradecimentos