quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Autoridade da Bíblia na tradição protestante




A Bíblia é fonte de fé e base para a elaboração doutrinária de todos os ramos do cristianismo. Estudiosos bíblicos de renome são encontrados no catolicismo-romano e na ortodoxia oriental. Porém, é no protestantismo que este livro atingiu seu maior grau de autoridade. O famoso lema “Sola Scriptura” (Somente as Escrituras), denota a supremacia bíblica sobre outros elementos importantes da vivência cristã no mundo evangélico. Assim, para o protestante, a Bíblia é a máxima autoridade religiosa. Todo o resto se encontra subordinado a ela.

Por esta razão, Lutero, Calvino, Bucer, Zuínglio e todos os demais reformadores desenvolveram uma sólida teologia bíblica. Não obstante, uma questão deve ser avaliada: seria a teologia bíblica desenvolvida pelos reformadores do século 16 semelhante ao pensamento predominante no contexto evangélico brasileiro, marcadamente influenciado pelo fundamentalismo teológico?

Segundo a ideia fundamentalista, a Bíblia seria inspirada de forma verbal, isto é, todas suas palavras foram ditadas diretamente pelo Espírito Santo, cabendo ao ser humano desempenhar o mero papel de copista, sem nenhuma participação no processo de criação do texto. Grupos extremistas consideram até mesmo os supostos pontos vocálicos do original em hebraico no Antigo Testamento como divinamente inspirados. De acordo com esta visão, tudo o que se encontra no texto seria literalmente inerrante. Como aplicação prática deste princípio, a Bíblia converteu-se em um manual de ciências naturais ou em um compêndio historiográfico. A já mais que centenária polêmica envolvendo Criação x Evolução demonstra de forma clara esta situação. Para o fundamentalista, o texto do livro de Gênesis, que relata de forma simbólica a criação do universo, deve ser lido de forma literal e histórica. Tudo teria sido criado em 6 dias de 24 horas, sendo que todas as formas de vida surgiram da forma exata como descritas em Gênesis.

Após este pequeno resumo a respeito da forma como a teologia fundamentalista conservadora interpreta os escritos bíblicos, devemos confrontá-la com a maneira como os reformadores lidaram com essa questão.

Martinho Lutero tinha a Bíblia em altíssima conta. Para o reformador, ela era verdadeiramente a palavra de Deus. Contudo, tal designação não foi utilizada como que se referisse a um manual de ditos inerrantes. Para ele, a Bíblia era a palavra de Deus pelo fato de proclamar Jesus Cristo como salvador da humanidade. “A Bíblia é uma manjedoura, na qual está contido Jesus. Se não o encontramos, só temos palha”, afirmou o reformador. Coerente com esta declaração absolutamente cristocêntrica, Lutero chegou ao ponto de julgar o conteúdo bíblico usando como critério a pessoa e a obra de Jesus. Em uma de suas obras, escreveu: “Este é o verdadeiro critério para julgar todos os livros: se a gente vê, se tratam de Cristo ou não, uma vez que toda a Escritura mostra Cristo. O que não ensina Cristo, isto também não é apostólico, ainda que Pedro ou Paulo o ensinassem. Por sua vez, o que prega Cristo, isto seria apostólico, ainda que Judas, Anás, Pilatos ou Herodes o fizessem”. Vemos que Lutero submete a própria Bíblia a Cristo. Essa consciência o levou a ter a liberdade de criticar, abertamente, alguns livros da Bíblia. A Epístola de Tiago, por exemplo, foi chamada de “epístola de palha”. Já o livro de Apocalipse era visto com reservas, sendo considerado bastante obscuro.

João Calvino, reformador francês e pai do presbiterianismo, também possuía uma compreensão a respeito da Bíblia bastante divergente da concepção fundamentalista. Seguindo os passos de Lutero, Calvino afirmava a condição da Bíblia como palavra de Deus escrita. Concordando com o reformador alemão, atribuía este título às Sagradas Escrituras devido à sua capacidade de aproximar o ser humano de Jesus. Gottfried Brakemeier, teólogo e pastor luterano brasileiro, avaliza esta idéia: “A concentração cristológica da Escritura encontra notável paralelo em Calvino. Jesus Cristo é o centro da Escritura. Esta é a palavra de Deus na medida que traz Cristo consigo. Tal concepção afasta a identificação direta da letra com o evangelho e impele a busca do evangelho por trás das palavras, bem como reconhece a contextualidade do texto bíblico. Para Calvino, o sentido de muitas passagens depende de seu contexto histórico. É Cristo que valida a Bíblia, não vice-versa, sendo o Espírito Santo o autêntico intérprete. O biblicismo que atribui à Bíblia inerrância verbal é posterior tanto a Lutero como a Calvino”.

Completamente contrário ao método literalista de leitura bíblica apregoado pela escola fundamentalista-conservadora, Calvino fazia uso da chamada acomodação. De acordo com este método, Deus acomodaria sua mensagem de uma forma compreensível para o ser humano incapaz de entender suas verdades de maneira completa: “Assim, tais formas de falar não expressam com muita clareza o que Deus é, visto que acomodam o conhecimento dele à nossa frágil capacidade”. Foi isso que Calvino escreveu nas Institutas . A respeito do método hermenêutico da acomodação usado pelo reformador de Genebra, e especificamente no tocante a sua relação com as ciências naturais, Karen Armstrong declarou: “ Calvino não via contradição entre a ciência e as Escrituras. Em sua opinião a Bíblia não fornece informações literais sobre geografia ou cosmologia, mas tenta exprimir uma verdade inefável em termos que os limitados seres humanos possam entender. A linguagem bíblica é infantil – uma simplificação deliberada de uma verdade complexa demais para ser articulada de outro modo”. Portanto, fica clara a enorme distância existente entre a forma como Calvino enxergava o texto bíblico e o literalismo que defende a tese de que todas as palavras são absolutamente inerrantes e divinas, devendo ser interpretadas literalmente. Uma leitura verdadeiramente calvinista das Escrituras não combina com fundamentalismo.

Outras significativas distâncias separam Calvino dos modernos fundamentalistas, muitos dos quais se consideram, de forma absolutamente equivocada, fiéis intérpretes do reformador. Para estes grupos conservadores, a veracidade da Bíblia como palavra de Deus deve ser provada de todas as formas possíveis. Comprovações supostamente científicas de fatos narrados na Bíblia são fundamentais. Para Calvino, este método é completamente ineficaz: “Devemos tentar conseguir nossa convicção em um lugar mais elevado do que as razões, avaliações e conjecturas humanas, isto é, no testemunho secreto do Espírito” (Institutas 1.7.4). Ou ainda: “Aqueles que desejam provar aos incrédulos que a Escritura é a palavra de Deus estão agindo tolamente, pois isto somente pode ser sabido mediante a fé” (Institutas 1.8.13).

Após claros apontamentos, fica claro o distanciamento de Calvino de uma interpretação legalista e literalista da Bíblia. Todavia, este afastamento chega a ser tão marcante a ponto de o autor das Institutas admitir erros e falhas no próprio texto. Comentando uma falha cometida pelo apóstolo Paulo em Romanos 3.4, citando de forma equivocada o texto do Salmo 51.4, afirmou: “Ao citar as Escrituras, os apóstolos frequentemente usavam uma linguagem mais livre do que o original, visto que eles se contentavam em aplicar a citação ao seu assunto e, portanto, eles não eram exageradamente cuidadosos no uso das palavras”.

Nessa breve exposição, duas coisas ficam claras: a participação ativa dos apóstolos na criação do texto, não como simples copistas guiados pelo Espírito; e a possibilidade de pequenas imprecisões no momento da redação textual. Esta percepção de Calvino é afirmada de forma mais direta em um trecho de seu comentário enfocando Hebreus 10.6: “Os apóstolos não eram escrupulosos demais na citação das palavras, ressalvando que não faziam mau uso das Escrituras, segundo suas conveniências. Nós devemos sempre olhar para o propósito com que as citações eram feitas… mas, no que diz respeito às palavras, como em outras coisas que não são relevantes ao propósito estabelecido, eles se permitiam alguma indulgência”.

Após argumentos tão contundentes, torna-se clara a enorme diferença existente entre a idéia de autoridade e inspiração bíblica cultivada pela tradição protestante original e a posterior teoria da inspiração verbal, fruto da ortodoxia do século XVII, defendida por teólogos fundamentalistas e até mesmo conservadores. Para os reformadores, a Bíblia era uma interminável fonte de paz e liberdade, levando a pessoa ao pleno conhecimento de Deus e de sua vontade para a vida cotidiana. Para a teologia fundamentalista, a Bíblia se converteu em um livro árido, repleto de regras moralistas e castradoras, sendo utilizada até mesmo como manual de ciências naturais, extrapolando e adulterando a função primordial do livro sagrado. Tornou-se, como bem afirmou o teólogo reformado suíço Emil Bunner uma espécie de “papa de papel”.

Para que a Bíblia seja compreendida e utilizada de forma correta, cabe uma breve reflexão sobre o que escreveu um importante pastor e teólogo presbiteriano independente, o Rev. Epaminondas Melo do Amaral: “A fim de colocar em posição legitima seu princípio, terá o protestantismo de rejeitar todo o literalismo que ele tenha impregnado. Valerá para nós a Escritura, sem imposições da inspiração literal, sem o peso indiscriminado da aceitação em bloco, porém com as insuperáveis virtudes de sua mensagem espiritual”.

JORGE BERTOLASO STELLA E SUA CONCEPÇÃO DA FORMAÇÃO DA BÍBLIA .





Stella é uma daquelas personalidades cujo brilhantismo foi relegado ao esquecimento. Italiano de Abadia, província de Parma, chegou ao Brasil com três anos de idade. Estabeleceu-se, junto com seus familiares, no interior de São Paulo. Convertido ao protestantismo, tornou-se ministro evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.

Interessante é sua sólida formação intelectual. Teólogo formado, adquiriu um real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico. Não obstante a importância destas duas línguas, sua grande contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual nacional a dominar o sânscrito, língua indiana milenar. Apaixonado pela cultura hindu, escreveu um dos melhores comentários existentes em português sobre o Bhagavad Gita, livro sagrado do hinduísmo, além de vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Ao contrário da maioria dos evangélicos, não possuía uma relação apologética com crenças não cristãs , mas as considerava como expressões relevantes da religiosidade humana. Completamente favorável ao diálogo inter-religioso, deixou o seguinte pensamento: “ Não há, em determinado sentido, duas religiões no mundo. Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. A água é uma só… A luz é uma só… conforme o instrumento que ela atravessa, se decompõe em cores diferentes como no caso do arco-íris”.
Foi professor emérito da cadeira de história das religiões na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente na capital paulista e membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Feito este pequeno e indispensável resumo histórico, vamos nos ater em um breve texto de sua autoria a respeito do processo de formação da Bíblia. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos de outras culturas e religiões foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram claramente inspiradas no babilônico Código de Hammurabi. Isto é, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.

Assim, vamos ao texto, ele fala por si:

AS RAÍZES DA BÍBLIA

A Bíblia, livro humano, tem sido comparada com muitas coisas para mostrar sua utilidade. Eu assemelho-a uma árvore frondosa, cujas folhas são medicinais, cujas flores embelezam e cujos frutos nutrem e dão vida.

Nem sempre, ao observarmos uma árvore, pensamos na importância de suas raízes, que são como veias do corpo humano. É interessante observar, de passagem, que na língua basca, a mais antiga da humanidade ( 25.000 anos ), a palavra raiz significa veia. Raízes cortadas, árvores mortas.

A Bíblia tem suas raízes na Suméria, Caldéia,de onde recebeu idéias da criação, de Adão e da árvore da vida. Da Babilônia tiram-se, do Código de Hammurabi, 2.500 A.C, as leis abundantes que figuram nos livros de Gênesis, Êxodo e Levítico.

Do Egito,de onde, como se crê, origina-se Moisés, que não sendo autor do Pentateuco como muita gente pensa, é, no entanto, um vulto notável da humanidade, de lá vem, ao que parece, a idéia de Deus.

Da Pérsia passam para o Velho Testamento os seres celestes: anjos e arcanjos.
Dos Cananeus, outras abundantes idéias são transplantadas para a Bíblia. Demais idéias que constituem seiva preciosa, vêm de outros solos.

Como folhas são medicinais, as flores formosas e os frutos dão vida, a Bíblia é sombra de refrigério na aflição , embeleza a vida moral, o caráter, e nutre as almas nas suas aspirações.

À sombra dessa árvore tenho vivido a minha vida e na experiência de seus autores, colho o necessário para minha existência.

A Bíblia é a árvore da vida.

Conceitos religiosos – Jorge Bertolaso Stella, São Paulo, 1976


POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

Fontes :

Grandes Temas da Tradição Reformada - Donald K. McKim ( editor ) Pendão Real

A autoridade da Bíblia - Controvérsias- Significado- Fundamento- Gottfried Brakemeier- Sinodal

Bíblia- Suas Leituras e Interpretações na História do Cristianismo- Martin N Dreher

Conceitos Religiosos - Jorge Bertolaso Stella- São Paulo

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lady Gaga. Arte Massificada e militância parcial






Creio que todo mundo ficou chocado com o modelo de péssimo gosto trajado pela cantora norte-americana Lady Gaga por ocasião da última premiação do VMA. Visando causar polêmica ou levantar a bandeira de uma causa nobre que comentarei no transcorrer do texto, Gaga apareceu inteiramente vestida de carne. Organizações que militam em prol dos direitos dos animais criticaram de forma veemente a suposta nova diva da música pop mundial.


Acho que já deu para sentir que não sou nem um pouco fã da senhorita Lady Gaga. Sei que gosto não se discute, muitas vezes apenas se lamenta, mas gostaria de fazer duas críticas sobre a moçoila. De antemão, peço desculpas ao pessoal que lê ou segue este blog e aprecia a cantora. Rogo que não me abandonem.


Musicalmente, Lady Gaga não apresenta absolutamente nada de novo. Na minha modesta opinião, é uma mistura de Madonna com Britney Spears com algumas pitadas de dance, pop e outros gêneros altamente comerciais. Como o pessoal hoje em dia consome qualquer tipo de melodia que grude facilmente na memória, a mulher tornou-se um verdadeiro estouro na parada. Eu mesmo já me deparei, involuntariamente, cantando a tal Bad Romance. Até a patroa em casa estranhou! Não bastando à melodia bem pastelão, o marketing em cima de Lady Gaga é absolutamente monstruoso! Se você ligar seu aparelho de TV na MTV, lá estará Gaga. Se você sintonizar seu rádio em uma emissora insuportável como uma Jovem Pan de São Paulo, vai escutar, no mínimo, umas três canções da loira em menos de duas horas!


Fora o apadrinhamento absurdo por parte da mídia, o visual, supostamente rebelde, garante uma postura pseudo-punk, quase anárquica, dando ares de grande contestadora para a nova explosão pop mundial. Assim, o circo está inteiramente montado! Temos mais um novo exemplo do que a famosa indústria cultural, tão sabiamente analisada pelo filósofo alemão Theodor Adorno, um dos grandes figurões da fantástica Escola de Frankfurt, é capaz de construir. Enquadro o “estilo Lady Gaga” de se fazer arte como a confirmação do que Adorno escreveu tempos atrás, afirmando que " a apoteose do tipo médio pertence ao culto daquilo que é barato”.


Não me interpretem mal. Não quero passar uma postura elitista a respeito das artes. Uma expressão artística para ser boa não precisa ser trabalhada, complexa, mas deve ser feita, primeiramente, com coração, vontade, não visando exclusivamente o lucro. Eu, por exemplo, gosto de Ramones, um grupo que nunca primou por uma técnica musical apurada, mas sua música tinha realmente postura, não tendo como finalidade primordial a fama e a grana. Não vejo tais ingredientes em Lady Gaga.
Após comentar sobre o lado artístico da nova queridinha do pop, tentarei abordar um pouco sua postura altamente incoerente como militante social.


Lady Gaga assume-se como defensora intransigente da causa gay. Legal. Eu mesmo, heterossexual ortodoxo, cristão protestante, estudante de teologia e mackenzista defendo os direitos da comunidade GLBTT. Até mesmo já escrevi sobre esse assunto no blog.
Todo cidadão, independentemente de sua orientação sexual, deve ter seus direitos resguardos pelo estado. Portanto, a união civil entre casais homoafetivos, fator básico para que tais direitos sejam realmente exercidos, é fundamental em um estado verdadeiramente justo.
No entanto, caso minha militância ficasse restrita apenas a tal ponto, acredito que seria incompleta. Portanto, além da causa GLBTT, a situação do negro, do mestiço, do indígena, da mulher, do pobre, do sem-teto, do sem-terra, dos animais e da natureza deve fazer parte de minha agenda como cidadão socialmente responsável.


Não acredito em militância em uma causa exclusiva. Martin Luther King, pastor batista estadunidense e líder da comunidade negra de seu país, forneceu um exemplo histórico de uma militância social realmente plural sem deixar de lado seu foco inicial. Iniciando sua vida como militante em prol da causa negra, Luther King conscientizou-se de que a opressão vivida pelo negro estadunidense era fruto de um contexto social muito mais abrangente. Ciente de tal realidade alargou sua atuação como contestador social. Começou a defender o direito dos operários brancos oprimidos por seus patrões e, radicalizando ainda mais seu discurso, passou a condenar o próprio sistema capitalista vigente nos EUA e a participação de seu país na nefasta Guerra do Vietnã.
Em cima das ponderações feitas acima, pergunto; qual a opinião de Lady Gaga a respeito de temas como: aquecimento global, ecologia, defesa dos animais, fome no mundo, pobreza, imperialismo norte-americano, consumismo, guerras e etc? Posso estar pecando pela ignorância, mas nunca tomei ciência de qualquer pronunciamento da cantora sobre essas questões tão importantes.


A defesa dos direitos dos homossexuais por parte de Lady Gaga é louvável. A cantora apenas peca pelo fato de limitar sua exposição na grande mídia defendendo um tipo de causa. Parece que todos os outros graves problemas mundiais simplesmente não existem.


Em nossos dias, a atuação de Angelina Jolie deveria servir de exemplo para Lady Gaga. Bissexual assumida, Jolie nunca ficou restrita a defesa de seu próprio grupo, mas alargou sua forma de atuação chegando a ser nomeada Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissionado das Nações Unidas (ONU). Vemos na agenda social de Jolie um verdadeiro amálgama de frentes sociais: defesa do direito dos homossexuais nos EUA, engajamento contra a fome no mundo, luta em prol dos refugiados de guerra e etc.


Angelina Jolie, está aí um bom exemplo a ser seguido por Lady Gaga. Será que ela consegue?



































POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Em defesa do Pentecostalismo


Já li várias matérias a respeito do pentecostalismo. De artigos acadêmicos a textos publicados no mundo virtual, a oferta sobre o tema é vastíssima.
Porém, uma coisa me incomoda profundamente; o julgamento prévio, na maioria das vezes preconceituoso e irônico, a qual o importante fenômeno pentecostal é submetido.

É necessário dizer que não sou carismático, nunca tive uma experiência avivalista em minha vida religiosa. Sou membro de uma denominação reformada tradicional, porém não cessacionista, e pauto minha identidade teológica naquilo que posso denominar como “ reformada progressista”, fazendo uma leitura contextualizada da teologia dos reformadores. Não suportanto rótulos, creio que me enquadro entre a neo-ortodoxia barthiana e um liberalismo moderado evangélico.

Liturgicamente, mesmo defendendo um culto brasileiro e contextualizado de acordo com nosso povo e tempo, sou afeito a uma liturgia trabalhada, solene, portanto bastante diferente da típica liturgia pentecostal.

Feitas as devidas ressalvas, vou esclarecer o motivo de minha tristeza quando leio determinadas notas a respeito do pentecostalismo. A mídia secular quase sempre aborda o movimento pentecostal apenas em seu aspecto pejorativo e não tão nobre, afinal, está em busca daquilo que pode proporcionar polêmica e, no caso, retorno financeiro. Acho que nunca li uma leitura teológica e sociológica séria na grande mídia sobre o tema. Por outro lado, setores da mídia evangélica, influenciados por uma mania neurótica de perseguição, nunca estão dispostos a realizar um debate relevante e imparcial sobre assuntos polêmicos relacionados ao pentecostalismo.
O que resta são alguns poucos bons livros acadêmicos, porém de dificil acesso e compreensão para o grande público. Assim, gostaria de escrever algumas impressões particulares a respeito do pentecostalismo, avaliando sua força e fraqueza. Quando digo pentecostalismo, me refiro ao movimento clássico, não considerando o chamado neopentecostalismo.

O lado Libertário do Pentecostalismo

Surgido no início do século XX nos Estados Unidos, o movimento pentecostal sempre foi visto com maus olhos pelos protestantes fundamentalistas. Suas ênfases doutrinárias e litúrgicas foram rebatidas com argumentos diversificados, desde ricos comentários teológicos até chavões toscos e preconceituosos.

Dentro do universo reformado estadunidense, teólogos presbiterianos de renome como B.B.Warfield e Charles Hodge argumentavam que os dons espirituais narrados nas páginas do Novo Testamento tiveram seu fim logo após a era apostólica. Dessa forma, qualquer ato sobrenatural ocorrido após esse período seria basicamente fraudulento. A obra de Warfield denominada “Milagres Falsificados”, publicada em 1918, negava, por exemplo, a existência de atos miraculosos na era contemporânea. Portanto, um dos pilares básicos do pentecostalismo era contestado. Outro presbiteriano, Ronald A.Knox, fomentou um ataque mais virulento ao pentecostalismo por meio de seu livro “Entusiasmo”, onde as manifestações emocionais ocorridas em cultos pentecostais foram veementemente condenadas.Com a consolidação do movimento fundamentalista o nascente pentecostalismo tornou-se alvo de uma campanha agressiva e difamatória. Batistas e presbiterianos conservadores lideraram esse período inquisitorial. A anteriormente elaborada contestação teológica feita por teólogos conservadores como Warfield cedeu lugar a agressões verbais completamente destemperadas, como acusações de que o pentecostalismo seria o último “vômito de Satã” na terra.

A despeito das críticas doutrinárias, será que o ataque ao pentecostalismo foi motivado apenas por questões dogmáticas e litúrgicas? Uma analise fria da história nos mostra que não. Surgido oficialmente em abril de 1906, o pentecostalismo teve como principal líder a figura do negro Wiliam Joseph Seymour. Aluno do metodista racista Charles Fox Parham, Seymour sentiu na própria pele a crueldade do racismo estadunidense. Assíduo freqüentador das aulas bíblicas ministradas por Parham, Seymour tinha sua presença em sala de aula proibida pelo fato de ser negro. Posteriormente, como líder do novo movimento religioso que seria conhecido como pentecostalismo, foi responsável por uma integração racial jamais vista nos EUA do início do século XX. Assim, essa verdadeira democracia racial incomodou a elite branca estadunidense majoritariamente vinculada ao fundamentalismo protestante.

Karen Armstrong em seu ótimo livro “Em nome de Deus- o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo ", confirma tal tese. Vejamos:

“Nesses primeiros anos parecia que uma nova ordem mundial estava surgindo em seus cultos. Numa época de insegurança econômica e crescente xenofobia, negros e brancos rezavam juntos e se abraçavam. Seymour se convenceu de que era essa integração racial, e não o dom de línguas, que constituía o sinal decisivo do fim dos tempos”.

O historiador David Daniel III confirma os dados transmitidos por Karen:

“A Missão da Fé Apostólica de Seymour serviu de modelo para as relações raciais. De 1906 a 1908, negros, brancos, latinos e asiáticos adoravam juntos na missão. Líderes pentecostais brancos, como Florence Crawford, Glenn Cook, R.J.Scott e Clara Lum, trabalhavam com o pastor Seymour, e com algumas lideres negras como Jennie Evans Moore, Lucy Farrow e Ophelia Wiley. O pentecostalismo nascente teve de encarar sua identidade racial numa época em que a maioria das instituições e movimentos cristãos e sociais dos Estados Unidos esposava a segregação racial. Frank Bartlemann, que participou do avivamento na Rua Azusa, expressa sua admiração – A segregação racial foi apagada pelo sangue de Jesus! Enquanto batistas, metodistas, presbiterianos e comunhões holiness, no período de 1865 a 1910, tendiam à segregação racial em suas congregações, associações e estruturas denominacionais, brancos e negros pentecostais pastorearam, pregaram, comungaram e adoraram juntos de 1906 a 1914. Em geral, antes de 1914, os ministros pentecostais brancos independentes recusavam a filiar-se a emergentes denominações pentecostais de tendências segregacionistas, embora muitos deles fossem membros do grupo pentecostal holiness de maioria negra, a Igreja de Deus em Cristo. A liderança pentecostal condenava com veemência as atividades da Ku Klux Klan, e muitas vezes foi alvo do terrorismo dessa organização, por causa da ética inter-racial do pentecostalismo. Parham demonstrava um comportamento racista e uma atitude arrogante em relação a seus colegas negros, especialmente Seymour”.

Tais ideais eram inaceitáveis para o típico protestante conservador norte-americano. Convém lembrar que o fundamentalismo protestante, posteriormente associado aos grotões menos desenvolvidos dos EUA, em seu início foi financiado por elementos altamente influentes da elite, como os magnatas ligados a indústria petrolífera Lyman e Milton Stewart, responsáveis pela publicação, entre 1910 e 1915, da famosa série de folhetos “Os Fundamentos”, considerados textos basilares para a ortodoxia protestante.

Portanto, qualquer movimento que alterasse a ordem estabelecida seria considerado absolutamente herético. Além da integração racial promovida pelos primeiros pentecostais, outros fatores contribuíram para o repúdio manifestado por setores magistrais do protestantismo norte-americano. O culto altamente participativo, responsável pela quebra de barreiras entre clero e laicato, não poderia ser aceito normalmente por uma sociedade fortemente hierárquica. Não bastando, a composição sócio-econômica bastante humilde da maior parte dos integrantes do pentecostalismo original despertou uma oposição virulenta em setores ligados ao grupo majoritário e conservador do protestantismo americano. Vinson Synan, historiador pentecostal estadunidense, confirma essa idéia:

“Durante seis décadas (1906-1960), o pentecostalismo foi excluído do que era considerado cristianismo respeitável nos Estados Unidos e no mundo. Os pentecostais eram barulhentos e, para alguns, desordeiros. Sua adoração estava além do entendimento daqueles que não conheciam a espiritualidade interior que orientava o movimento. Acima de tudo, os pentecostais eram pobres, desprivilegiados, sem instrução e alheios às últimas tendências teológicas que interessavam à maior parte do protestantismo”.

A mídia secular da época, demonstrando de forma latente seu preconceito, não se cansava de noticiar fatos supostamente bizarros do pentecostalismo. Acontecimentos bizarros, além das manifestações sobrenaturais, eram considerados a liderança do movimento por um homem negro e a participação de mulheres em postos de liderança.

Após uma análise dos fatos citados, podemos concluir que o pentecostalismo não nasceu como um movimento repressor, mas sim como portador de uma proposta altamente libertária. Além das práticas com claro reflexo social, como a integração racial, valorização da mulher e ausência de discriminação por questões econômicas, a própria espiritualidade pentecostal era libertadora. Mesmo submetendo suas doutrinas e práticas ao crivo da Bíblia Sagrada, concedia um elevado posto ao sentimento pessoal do crente. Tal concepção chocava-se de forma contundente com o fundamentalismo teológico que apregoava a observância irrestrita a letra do texto bíblico.

Com o passar do tempo, um segmento substancial do pentecostalismo perdeu parte dessas características. Em completa contradição com seu passado não segregacionista, viu nascer em seu seio várias denominações pentecostais voltadas exclusivamente para brancos. Convém lembrar que o pentecostalismo brasileiro é originário desse pentecostalismo segregacionista, uma verdadeira apostasia da proposta original.

Como se tratava de um movimento recente e sem grande tradição teológica, aceitou boa parte das doutrinas defendidas pelo fundamentalismo que tanto o combatera. Dessa forma, doutrinas associadas deliberadamente ao pentecostalismo como: escatologia pré-milenarista, inerrância verbal das Escrituras e um moralismo asceta foram tomadas como empréstimo do protestantismo tradicional fundamentalista. Assim, esses elementos doutrinários claramente repressivos e limitadores de uma atuação transformadora na sociedade não são características inerentes ao pentecostalismo, mas refletem a influência nefasta do fundamentalismo sobre um movimento que tinha tudo para ser uma verdadeira renovação no cristianismo.

Após esta breve análise histórica, cabe aos pentecostais do século XXI a luta pelo retorno aos antigos e originais valores.



POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA



Fontes :


Em nome de Deus- O Fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo- Karen Armostrong- Companhia das Letras


O Século do Espírito Santo - 100 anos do Avivamento Pentecostal e Carismático- Vinson Synan- Vida Acadêmica.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Os evangélicos e a Teologia da Libertação


Texto de minha autoria publicado na revista evangélica " Eclésia".


Nos anos 1970 e 80, uma nova abordagem da fé cristã começou a ganhar corpo na esteira da polarização do mundo entre capitalismo e comunismo. A Teologia da Libertação, interpretação do Evangelho pelo viés marxista, floresceu no seio de setores progressistas da Igreja Católica, defendida por teólogos do porte de Gustavo Gutiérrez, José Coblin e Frei Betto, além de Leonardo Boff – este, aliás, tornou-se uma espécie de personificação do movimento no Brasil. Combatido com vigor pelo Vaticano, o frei Boff foi exortado a abandonar suas teses pelo então cardeal Joseph Ratzinger, homem forte da Santa Sé e que, em 2005, acabou chegando ao papado. Abandonando voluntariamente o sacerdócio, suas idéias sofreram um certo esvaziamento nas duas últimas décadas.

Devido à sua ligação com pensadores católicos, a Teologia da Libertação acabou sendo associada à Igreja Romana. No entanto, um detalhe é pouco sabido e quase sempre ocultado: esta vertente da fé cristã, de cunho fortemente social, possui uma raiz fortemente evangélica. Movimentos populares e até mesmo revolucionários de contestação à pobreza, miséria e desigualdade social foram atuantes durante toda a história do protestantismo. Ainda no século 15, antes mesmo da Reforma luterana, seguidores radicais do pré-reformador João Huss, os chamados taboritas, apregoavam a luta armada para o estabelecimento do Reino de Deus na terra, onde reinaria a justiça e paz.

Já no século 16, parcela significativa dos anabatistas alemães era unânime em condenar a propriedade privada. Aquele foi um tempo de contestação, ainda inspirado pelo fim da Idade Média e a derrocada do modelo feudal de concentração de riquezas. A classe dos trabalhadores rurais assalariados, em expansão, reivindicava melhores condições de vida – e, na vanguarda do movimento, havia forte inspiração nas idéias de justiça social e igualdade presentes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Embora, paradoxalmente, tenha sido condenado por Martinho Lutero, o levante dos camponeses germânicos foi fruto direto de suas teses, que minaram a autoridade do maior poder político de sua época, a Igreja.

Um século depois, foi a vez da Inglaterra ser sacudida pela chamada Revolução Puritana. Liderada por Oliver Cromwell, o movimento mudou o perfil político e social da Grã-Bretanha. Os puritanos depuseram o rei Carlos I, que acabou condenado à morte, aboliram a monarquia e instituiram um regime republicano. Inspirada na reforma calvinista que se espalhara por todo o continente europeu, a Revolução Puritana estabeleceu, mesmo que por pouco tempo, uma Igreja radicalmente evangélica, sob os moldes de Genebra. Entre os vários grupos que compunham o exército puritano, os chamados cavadores eram partidários de um verdadeiro comunismo cristão, condenando qualquer tipo de propriedade privada.

Já no fim do século 19, os pastores reformados suíços Leonhard Ragaz e Hermann Kunter organizaram o chamado movimento socialista cristão, que repercutiu por toda Europa e Estados Unidos. Todo este engajamento de lideres evangélicos em prol da justiça social se fez presente no desenrolar do século 20 – justamente, a época que assistiu o surgimento, apogeu e queda do comunismo stalinista como política de Estado. Posições democráticas e socialistas foram defendidas por teólogos de renome como Karl Barth e Paul Tillich.

Ordem desigual

Se floresceu numa Europa marcada pela busca por mudanças radicais, na América Latina a semente do cristianismo social não encontrou terreno propício para germinar. Se, por um lado, a Igreja Católica, historicamente, sempre tomou o partido dos poderosos, o protestantismo, por sua vez, adquiriu contornos mais místicos que políticos. Relativamente nova – a chegada dos primeiros missionários evangélicos só ocorreu a partir de meados do século 19 – e minoritária, a Igreja Protestante preocupou-se prioritariamente com a salvação individual. “O protestantismo acalenta e agasalha muito bem o conceito abstrato de salvação – o de que o mais importante é a alma”, frisa Ronaldo Cavalcante, doutor em teologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca, Espanha, e docente da faculdade de filosofia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Ele lembra que, durante boa parte da primeira metade do século 20, a atuação social dos evangélicos latino-americanos ficou restrita a obras caritativas, como creches, escolas e hospitais. “Não havia ferramentas teóricas para tentar modificar a ordem altamente desigual que condenava a parte sul do continente americano a uma existência miserável para boa parte de seus habitantes”, observa o estudioso.

Foi só a partir da década de 1940, com a chegada do missionário norte-americano Richard Shaull ao Brasil, que esta situação começa a mudar. Antes de se estabelecer no país, onde foi responsável por uma verdadeira revolução no ensino teológico e no movimento estudantil entre jovens evangélicos, Shaull foi missionário na Colômbia. Já dotado de uma avançada consciência social, constatou que simples obras sociais não alterariam a situação de profunda miséria que caracterizava a sociedade colombiana. Caminhando pelos subúrbios da capital Bogotá, Shaull percebeu que apenas uma mudança estrutural poderia mudar, não apenas a precária situação local, mas todo o quadro latino-americano. Terminando seu vinculo com a missão colombiana, Shaull retorna aos EUA, onde durante dois anos aprofundou-se no estudo das teorias marxistas.

“Richard Shaull viu no marxismo elementos para a construção de uma ordem social mais justa, e nele sentiu o desafio para se tornar um cristão melhor do que era”, diz Eduardo Galasso Faria, pastor presbiteriano independente e autor do livro Fé e compromisso – Richard Shaull e a teologia no Brasil. Tomado por esta nova compreensão social, Shaull publica o artigo A forma da Igreja na antiga Diáspora. Neste pequeno texto, encontra-se o embrião da Teologia da Libertação, na época conhecida como “teologia da revolução”. “Shaull não é considerado o pai da Teologia da Libertação. Mas, para muitos, é tido como seu precursor. O fato é que, ao ver as primeiras manifestações dessa abordagem teológica, Shaull sentiu que ela era o desenvolvimento natural do trabalho que havia iniciado anteriormente e no qual não pôde prosseguir. Entretanto, existem algumas diferenças entre seu pensamento e as idéias defendidas pelos posteriores teólogos da libertação”, explica Galasso.

Vanguarda evangélica

Na verdade, coube a um discípulo de Shaull, e presbiteriano como ele, a provável paternidade do movimento. Este é ninguém menos que o intelectual brasileiro Rubem Alves. Aluno de Richard Shaull no Seminário de Campinas (SP), Alves transformou-se num dos mais importantes e polêmicos teólogos protestantes da atualidade. Atualmente afastado do labor teológico, ele é considerado o pai do termo Teologia da Libertação. Fora do país devido ao golpe militar de 1964, Alves exilou-se nos Estados Unidos, publicando em 1968 a tese Teologia da Libertação. O trabalho tornou-se um marco – foi a primeira vez que a expressão “libertação”, hoje tão em voga e descaracterizada, foi empregada em uma obra teológica. Com este trabalho, Rubem Alves antecipou muitas das idéias mais tarde defendidas por pensadores católicos como Gutiérrez e Hugo Assman.

“Mesmo não sendo exclusivamente protestante, a vanguarda evangélica na área do estudo bíblico na Europa e nos EUA, unida à liberdade interna existente na tradição protestante, facilitaram muito a aproximação do patrimônio bíblico, com a forte tradição judaico-marxista, fazendo acontecer um diálogo criativo entre eles. Isto foi fundamental para o desenvolvimento da Teologia da Libertação”, analisa Ronaldo Cavalcante. Com o passar do tempo, essa vertente cristã inspirou inúmeras novas formas teológicas voltadas à luta por uma sociedade mais igualitária – inclusive, a teologia feminista e uma teologia negra.

Mais do que fazer discussões isoladas sobre inúmeros temas, o desafio da Teologia da Libertação é incorporar o cruzamento destas várias categorias políticas, econômicas, raciais e de gênero”, enfatiza a teóloga Sandra Duarte de Souza, professora ligada à Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Para ela, existe uma crescente preocupação por parte de importantes segmentos da Igreja Evangélica latino-americana para fazer da Teologia da Libertação um instrumento para o combate a todo tipo de opressão – e aí, pouco importa se ela tem origem econômica, espiritual e política.

POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

sábado, 18 de setembro de 2010

A Tolerância do jovem Lutero


Trecho retirado do ótimo livro História do Cristianismo, de autoria do historiador britânico Paul Johnson :

Lutero, como heresiarca, havia começado pedindo tolerância, insistindo na ( esta era uma nova expresssão ) " liberdade de consciência". Não queria " triunfar pelo fogo, mas pelos escritos". Entre suas preposições condenadas por Roma, figurava : " queimar hereges é contrário à vontade do espírito". O poder secular deveria " ocupar-se de seus próprios negócios, deixando que cada qual acredite no que puder e optar, não se valendo de qualquer força com ninguém a esse respeito". Chegou mesmo, a princípio, a instar que os príncipes fossem tolerantes com os milenaristas, anabatistas e outros tipos de Munster, " por ser necessário que haja seitas e a palavra de Deus seja alistada e se engaje nas batalhas". Essa moderação inicial não sobreviveu à crescente dependência de Lutero em relação aos príncipes".


História do Cristianismo - Paul Johnson- Imago, página 347.


PS : A ligação com o poder corrompe até mesmo nobres pessoas

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O Jesus Histórico e suas evidências


“A dúvida acerca da existência real de Jesus carece de fundamento e não merece uma só palavra de réplica. Fica completamente claro que Jesus está, como autor, atrás do movimento histórico cujo primeiro estágio palpável temos na mais antiga comunidade palestinense”. Com estas palavras, o teólogo luterano Rudolf Bultmann, um dos mais influentes do século passado, classificou como improcedentes as inúmeras teorias desenvolvidas, principalmente entre os séculos 18 e 19, que apregoavam a não existência de Jesus como personagem realmente histórico e, sim, como mera projeção subjetiva da então nascente comunidade cristã.

O embrião destas idéias encontra-se nos trabalhos de F. Volney e Ch. F.Dupuis, ambos produzidos em 1791. Porém, a obra de maior importância, cuja temática era a negação da existência real de Jesus, foi escrita por volta de 1877, tendo como autor o alemão Bruno Bauer. Historicamente, como bem atestou Bultmann, este ceticismo radical a respeito da existência de Jesus foi considerado improcedente pela quase totalidade dos modernos historiadores. Segundo Remi Gounelle, professor de teologia na Faculdade Protestante de Estrasburgo, França, nenhum historiador sério questiona que um certo Jesus de Nazaré viveu em uma determinada área do território palestino por volta do primeiro século.

No entanto, alguns céticos radicais vivem apregoando uma suposta inexistência de relatos extra-bíblicos a respeito de Jesus. Será que estas afirmações procedem? A resposta é: não! Existem fontes confiáveis oriundas de escritores judeus e pagãos que atestam a existência de Jesus. Entretanto, não podemos recorrer a estas citações visando estabelecer um perfil minucioso e detalhado de Jesus no que diz respeito à sua vida e atos. Nestes relatos, Jesus é apenas citado. Não há interesse por parte de seus autores em esmiuçar sua vida. Mesmo assim, estas simples citações são consideradas, pelos historiadores, elementos comprobatórios da existência do ser humano Jesus.

Fontes judaicas

Dentre as fontes judaicas, destacam-se as fornecidas por Flávio Josefo. De origem aristocrata, Josefo nasceu por volta do ano 37 d.C, em Jerusalém. Considerado um dos maiores historiadores hebreus, escreveu, entre tantas obras, clássicos como Antiguidades judaicas e História da Guerra Judaica. Mas o que Josefo diz sobre Jesus? A primeira citação, encontrada em Antiguidades Judaicas, é considerada absolutamente original e fiel: “Anás convocou os juízes ao Sinédrio e ordenou que levassem à presença deles o irmão de Jesus, ao qual chamam Messias, cujo nome era Tiago, e alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a lei e entregou-os para que fossem apedrejados.” (Antiguidades, 20, 200). Neste trecho, Jesus é citado de forma indireta, porém de maneira absolutamente clara. O foco da narrativa é Tiago. Não sendo muito conhecido, o mesmo é apresentado como sendo irmão de Jesus, o que supõe a importância e o reconhecimento histórico da pessoa de Cristo. Outro detalhe importante para a posterior cristologia: Josefo atesta que Jesus era reconhecido por seus discípulos como Messias.

A outra conhecida citação a respeito de Jesus encontra-se na mesma obra e é relativamente controversa. Trata-se do chamado Testimonium Flavianum. Segundo estudiosos, houve inúmeras interpolações, isto é, acréscimos de cunho cristão em uma versão deste trecho. Convém lembrar que Josefo era um judeu pertencente ao partido dos fariseus e, como tal, jamais escreveria, como encontramos na citada versão, frases a respeito de Jesus como: “Naquele tempo, quando Pilatos era governador, apareceu Jesus, um homem sábio, se é que realmente é lícito chamá-lo de homem”; ou: “Ele era o Messias” e outras de cunho claramente cristãs. Segundo Armand Puig, historiador e doutor em ciências bíblicas, após anos de estudos, especialistas chegaram à conclusão que o Testimonium é um fragmento autêntico de Flávio Josefo, porém, com posteriores acréscimos cristãos como os citados brevemente acima.

Além de Josefo, encontramos no contexto judaico, referências à pessoa de Jesus na Guemará, parte integrante do Talmude. São duas peças literárias encontradas no Tratado de Sanhedrin do Talmude da Babilônia. Ao contrário de Josefo, que escreveu de forma neutra sobre Jesus, estes escritos rabínicos são negativos. Tal atitude é compreensível, pois Jesus era considerado herege para o judaísmo.

Fontes pagãs

O mundo gentio também traz citações significantes a respeito do Jesus histórico. Tácito, importante historiador romano, escreveu entre os anos 116 DC a obra Annales. Comentando a respeito da origem do termo “cristão”, Tácito escreveu: “Este nome vem de Cristo, que, quando Tibério era imperador, tinha sido condenado à pena capital pelo procurador Pôncio Pilatos. Momentaneamente reprimida, esta superstição perniciosa voltou a ressurgir, não apenas na Judéia, berço do mal, mas também em Roma, onde chega e se espalha por todo o lado tudo aquilo que existe de terrível e vergonhoso” (Annales 15,44).

Outro historiador romano, chamado Suetônio (70 DC), em sua obra, A Vida de Cláudio, cita a influência de Jesus Cristo em eventuais distúrbios ocorridos entre judeus em Roma: “Cláudio expulsou os judeus de Roma por causa dos distúrbios constantes provocados por Cristo” (Vida de Cláudio, 25).

Plínio, o Jovem, governador romano da província da Bitínia, cita diretamente Cristo em uma carta enviada ao imperador Trajano, comentando a respeito da jovem igreja cristã: “Tem por hábito reunir-se no dia acordado antes do romper do sol e elevar cantos a Cristo como deus, onde recitam coros. Comprometem-se ainda, sob juramento, a não fazerem nada de mau e absterem-se de cometer roubos, de viver como malfeitores e de cometer adultério, de romper palavra dada, e não negarem a guardar o dinheiro que lhes seja confiado” (Cartas, 10,96).

Fora do contexto romano, mas dentro de uma cultura helenista, há o testemunho de dois importantes escritores. Comentando a destruição de Jerusalém em 70 DC, o filósofo estóico Mara Bar-Serapião refere-se a Jesus de forma indireta, denominando-o “rei sábio”. Por fim, o pensador sírio Luciano de Samósata, em seu trabalho De morte Peregren, faz uma avaliação do comportamento dos primeiros cristãos baseada na pessoa de Jesus: “Antes de tudo, estes infelizes cristãos estão convencidos que são imortais e de que viverão para sempre. Por isso, desprezam a morte e muitos a enfrentam voluntariamente. Seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos. A partir do momento em que renunciaram os deuses da Grécia, passaram a adorar seu sofista crucificado e amoldaram suas vidas aos seus preceitos. Eles também desprezam todos os bens, mantendo-os para uso comum.”

Após tão claros apontamentos, seria um ato de desonestidade histórica negar que realmente Jesus passou por esta terra. Porém, mesmo com fontes não cristãs bastante claras, algumas pessoas ainda insistem que as mesmas são exíguas. Para Gabrielle Cornelli, filósofo brasileiro ligado à Universidade de Brasília e um dos organizadores do livro Jesus de Nazaré- uma outra história, obra pioneira no assunto em nosso país, a documentação a respeito de Cristo não é exígua. Inclusive, se comparada ao que temos a respeito de Sócrates, importante filósofo grego, é relativamente numerosa. De acordo com o já citado historiador francês Remi Gounelle, o argumento derradeiro que atesta a real existência de Jesus é a atitude dos opositores do cristianismo no primeiro século. Filósofos e pensadores judeus e pagãos, mesmo tendo combatido o cristianismo de forma agressiva, nunca colocaram em dúvida a existência de Jesus. Caso Jesus não tivesse realmente existido, o argumento de sua não existência seria usado, sem sombra de dúvida, pelos perspicazes inimigos do cristianismo.

POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

Fontes
Jesus, uma biografia. Armand Puig. Paulus Portugal.
Jesus Cristo Libertador. Leonardo Boff. Vozes.
Revista História Viva, edição especial temática número 19, “Um homem chamado Jesus”.
Revista Galileu, número 186.