segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma Breve História do Socialismo Protestante - Parte I


Não sou chapa branca. Quem acompanha um pouco esse blog já notou meu posicionamento crítico diante da igreja. O cristianismo, seja católico ou protestante, tem um histórico de atrocidades sobre si. Inquisição, cruzadas, colonialismo, machismo, ligação com regimes conservadores e opressivos. Em suma, inúmeras posturas desastrosas, completamente incoerentes com o início do movimento cristão, libertário por natureza, foram assumidas pela igreja pós Constantino.

Mas não quero ficar apenas no âmbito da crítica. Esta mesma igreja, capaz de apoiar as causas mais reacionárias, também mostrou outra face, face bem mais próxima do simples e solidário Evangelho pregado por Jesus Cristo. Não desejo politizar o Evangelho. Não vinculo a mensagem de Cristo a qualquer ideologia humana, seja de direita ou de esquerda, afinal, são construtos humanos, portanto, falíveis. No entanto, nunca escondi de ninguém que sou de esquerda, defendendo o socialismo democrático como o regime mais compatível com uma sociedade justa e fraterna. Convém lembrar que não sou um esquerdista cego. Consigo enxergar qualidades em determinadas características do capitalismo dito liberal, mas acredito que o mesmo, historicamente, já está superado, devendo ceder lugar para uma ordem realmente socialista sem nenhuma ligação com aquele trágico e ditatorial regime stalinista reinante no leste europeu. Seria utopia de minha parte? Sim! Mas o cristianismo é utópico por natureza! No entanto, a utopia cristã não é baseada em uma hipótese impossível, fantasiosa, mas, de acordo com a tradição bíblica, coloca o ser humano como agente de sua própria história. Deus é soberano, mas esta soberania faz uso, dentre outras coisas, da atuação direta do seu povo. O livro do Êxodo nos mostra a sinergia existente entre o Deus libertador e o povo de Israel que, confiando nas promessas de Javé, caminhou por si até a terra prometida. A respeito da utopia escatológica cristã, Moltmann, teólogo reformado alemão, um dos grandes gigantes da teologia cristã ainda em atividade, escreveu:

A esperança escatológica (das coisas futuras) se torna força impulsionadora da história para a construção de utopias do amor ao ser humano sofredor e do seu mundo malogrado, ao encontro do futuro desconhecido, mas prometido por Deus”.

Ao contrário do pensamento predominante no protestantismo brasileiro, de cunho marcantemente pré-milenarista, a espera por um novo mundo não é passiva, buscando sinais da eminente volta de Jesus, mas é completamente humana e ativa, lutando por uma transformação radical da ordem social. Porém, esta necessária atividade humana não pode ser compreendida como a implantação do Reino em si, mas sim como um pálido reflexo daquilo que Deus tem reservado para sua criação e que será consumado de forma definitiva por Ele.

Após esta breve introdução teológica, vamos agora para o foco do assunto, a primeira parte de uma Breve História do Socialismo Protestante. Neste post iremos abordar uma certa idéia socialista existente no movimento reformatório chamado magistral, isto é, liderado por vultos como Martinho Lutero, João Calvino, João Knox. Posteriormente, veremos esta questão vinculada aos anabatistas e no transcorrer da história.

UMA BREVE HISTÓRIA DO SOCIALISMO PROTESTANTE - Parte I

O movimento reformatório do século 16 foi eminentemente religioso. Contudo, sua influência será sentida em aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos. Seria um grave equívoco considerarmos os chamados reformadores magistrais como precursores diretos da democracia e de um estado laico. Homens como Lutero, Bucer, Zwinglio e Calvino ainda estavam ligados a concepção teocrática da sociedade. Porém, ao se rebelarem contra a maior autoridade política de sua época, o papado, iniciaram um processo que durante o decorrer da história culminaria no chamado período iluminista com a luta por um estado laico, livre da tutela religiosa. Para muitos historiadores, não haveria iluminismo sem a Reforma Protestante. A ruptura com Roma foi fundamental para esse processo.

Assim como seria um grande erro identificar a consolidação da democracia como fruto direto do movimento reformista magistral do século 16, o mesmo pode ser dito a respeito de qualquer idéia sócio-econômica. O mundo do século 16 era bastante diferente do nosso, sendo impossível falar de capitalismo ou socialismo de acordo com os moldes atuais. No entanto, idéias defendidas pelos reformadores, assim como medidas implantadas pelos mesmos, nos permitem chegar a algumas conclusões a respeito de suas posições sócio-econômicas.

Martinho Lutero era bastante conservador. Sua vergonhosa aliança com os príncipes por ocasião do triste episódio conhecido como Guerra dos camponeses demonstra esse conservadorismo de forma clara. Não obstante, algumas idéias progressistas eram defendidas pelo antigo monge agostiniano. No que diz respeito à educação, Lutero defendia que as escolas fossem de clara responsabilidade da autoridade municipal, devendo ser obrigatória a freqüência por parte dos alunos. Não bastando, em uma atitude absolutamente revolucionária para a época, defendeu a criação de escolas direcionadas às mulheres. Temos aqui o embrião de uma idéia de educação universalista, obrigatória e custeada pelo estado, portanto, bastante diferente da atual concepção mercantilista que permeia a educação no regime capitalista.

Concernente a questões econômicas, Lutero manteve muitas posições claramente medievais, como, por exemplo, a repulsa por qualquer tipo de cobrança de juros. Doravante, mesmo possuindo este viés saudosista, até mesmo feudal em alguns aspectos, era um observador perspicaz da sociedade do seu tempo. Percebeu a evolução de uma sociedade agrária e feudal para outra basicamente mercadológica. Era o início do chamado capitalismo mercantil ou pré-industrial, bastante diferente do atual, mas claramente capitalista

Absolutamente preocupado com as injustiças decorrentes do livre comércio, Lutero escreveu, em 1524, seu famoso tratado denominado Comércio e Usura. Nele, ao contrário do que poderíamos esperar, o reformador aprovou o surgimento do comércio, afirmando, até mesmo, a necessidade desta atividade para o bom andamento da sociedade. Porém, manifestou uma clara preocupação a respeito da grande alternância de preços existente entre mercadorias similares e fundamentais para a sobrevivência do pobre. Para sanar esta grande chaga social, propôs que os príncipes territoriais tivessem o arbítrio final nessa questão. Resumindo, o ESTADO deveria intervir, quando necessário, de forma direta na questão comercial. A esse respeito, Walter Altmann, pastor e teólogo luterano brasileiro, traz a seguinte informação:

“Lutero percebeu que se fazia necessária uma regulamentação das atividades comerciais e financeiras pela ação do Estado, em particular no que concerne à fixação de preços, controle das mercadorias e proibição da especulação financeira.”

Portanto, encontramos em Lutero a firme defesa de um estado realmente participante e até mesmo interventor na economia, uma concepção bastante diferente da promulgada pelo capitalismo neoliberal.

Agora, vamos tratar de João Calvino. Absurdamente, o nome do reformador francês tem sido associado ao capitalismo atual. Tal idéia é fruto de uma má compreensão a respeito da obra do sociólogo alemão Max Weber, principalmente a contida em seu livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Justiça seja feita, Weber nunca afirmou que o calvinismo teria sido o pai do capitalismo. Como pessoa altamente ilustrada, ele tinha ciência que tal regime econômico foi gestado há séculos antes da reforma, provavelmente no final do século XIV. Além do mais, foram localidades fortemente católicas, como as cidades de Veneza e Gênova, na Itália, que se destacaram por esse capitalismo mercantil. Acertadamente, Weber afirmou que o movimento encabeçado por Calvino transcorreu juntamente com o desenvolvimento desse tipo de capitalismo, sendo ele influenciado pelo novo regime e não o contrário.

Weber, que inicia sua tese de forma magistral, se perde logo após. Ao atribuir valores peculiares do puritanismo britânico do século 18, portanto bastante afastado do calvinismo original do século 16, ao calvinismo como um todo, ele demonstra um total desconhecimento do pensamento econômico e social do reformador francês.

Ao contrário de Lutero, Calvino, como bom humanista, tinha uma visão mais positiva a respeito das mudanças sociais que ocorriam na Europa de sua época. Contudo, isso não significou uma aprovação irrestrita e acrítica à nova ordem. Um bom exemplo é a questão da cobrança de juros. Vimos que Lutero era veementemente contrário a cobrança de qualquer tipo de juros. Calvino, ciente da importância dessa taxa para o desenvolvimento econômico, sancionou-a de forma limitada. Para o francês, os juros somente eram aceitáveis caso o dinheiro emprestado fosse aplicado em outra atividade geradora de lucro, isto é, quando a outra parte ganhasse algum dinheiro em decorrência do valor cedido. Mesmo assim, a taxa de juros não era ilimitada, livre, mas sim fixada pelo próprio estado. Segundo André Biéler, pastor reformado e economista suíço, na Genebra calvinista, entre 1538 e 1544, estas taxas oscilaram entre 5% a 6,6% ao ano, bem inferiores aos 12% anuais permitidos nos territórios católicos de Carlos V.

No que diz respeito à cobrança de juros em um empréstimo pessoal, quando uma pessoa necessitasse de dinheiro para consumo, tal cobrança era absolutamente proibida, pois era considerada abertamente como agiotagem pecaminosa. Sobre esse tipo de cobrança de juros, André Biéler cita o próprio Calvino:

“A prática do juro tem quase sempre estes dois companheiros inseparáveis: crueldade tirânica e a arte de ludibriar, de onde resulta que, em outros lugares, o Santo Espírito põe entre os louvores do homem santo e temente a Deus o abster-se da usura, de tal sorte que exemplo bem raro é ver um homem de bem e, ao mesmo tempo, usuário”.

Caso a teoria de Calvino a respeito dos juros fosse aceita, todo nosso sistema bancário seria considerado agiota, explorador e criminoso. Uma pessoa que contraí um empréstimo no banco ou usa de seu famoso cheque especial para uso próprio, não buscando auferir lucro nessa transação, deveria, moralmente, estar isenta de qualquer taxa! Isso é ética calvinista no uso do dinheiro, portanto, se encontra em clara contradição com o sistema econômico neoliberal.

Como já comentado, o estado, na Genebra dos tempos de Calvino, tinha amplo controle na questão da taxação de juros. Porém, essa forte presença estatal era sentida em outras esferas. Daniel-Rops, historiador católico e membro da Academia francesa transmite a seguinte informação:

“A organização econômica da cidade no seu tempo mereceria um estudo especial: as leis contra a alta de preços foram draconianas, mas eficazes: praticamente todos os produtos foram tabelados. Um edito ordenou sobre pena de prisão que se lançassem ao Ródono todos os gêneros alimentícios avariados. Surpreende-nos ver Calvino solicitar por escrito do magistrado a emissão de um decreto que obrigue todos os proprietários de imóveis a colocar nas janelas umas grades para que as crianças pequenas não voltem a cair.”

Notamos uma clara e direta interferência do estado em vários fatores do cotidiano genebrino. Essa atitude é bastante diferente da preconizada pelo famoso capitalismo liberal do tipo laissez-faire.

Sobre a propriedade privada, Calvino estava longe de ser um comunista, ou um anabatista radical. Para ele, o ser humano tinha pleno direito de ser detentor de algo obtido através do fruto de seu trabalho. Contudo, essa propriedade deveria ser limitada. Seria inaceitável que poucos tivessem várias propriedades enquanto a grande maioria estivesse na mais absoluta miséria. Comentando a periódica redistribuição de bens existente no antigo povo de Israel, Calvino escreveu:

“Descendiam todos de uma e a mesma raça, e a terra de Canaã era sua herança comum; deveriam nutrir fraternidade mútua, como se membros fossem de uma só família. E por isso que Deus os tinha liberado para que sempre fossem livres, este proceder foi muito bom para cultivar entre eles uma situação média, impedindo que poucos tudo para si arrebatassem de modo a poderem oprimir a massa. Uma vez que, se aos ricos fosse permitido aumentar suas posses sem solução de continuidade, teriam eles dominado de maneira tirânica. Deus refreou todo poder excessivo mediante esta lei (a redistribuição periódica das terras e o cancelamento das dívidas).”

Assim, a propriedade privada é reconhecida, porém é limitada e vinculada ao interesse social da coletividade. André Biéler corrobora esta impressão: “A tarefa econômica do estado, porém, não se limita à salvaguarda de uma ordem jurídica da propriedade. O magistrado deve ainda velar a que desta propriedade os produtos sejam utilizados pra o bem da comunidade".

Ademais, vemos a influência de Calvino na consolidação do ensino público e gratuito. Além da Academia de Genebra, embrião da atual universidade da cidade, quatro novas escolas para jovens foram fundadas. Pequeno detalhe, todas eram gratuitas.

Gastaríamos muito tempo citando outros exemplos desta visão altamente social existente na reforma promulgada por Lutero, Calvino e outros reformadores.
Obviamente, nenhum desses reformadores pode ser considerado um comunista radical. Muito pelo contrário. Parte do embate que tiveram com os anabatistas surgiu contra a idéia coletivista radical estes grupos. Entretanto, notamos em Lutero e em Calvino valores que destoam claramente do atual capitalismo neoliberal. Uma forte presença do estado na economia e na organização social como um todo, educação universal, pública e gratuita, clara limitação da propriedade privada e vinculação da mesma a uma finalidade social, mostram, segundo vários especialistas, uma clara ligação com a posterior social-democracia européia.

É uma tese. Não pretendemos que seja aceita por todos. Afinal, não se trata de um trabalho acadêmico, é um simples post de blog.

Na próxima semana veremos a evolução desse “ socialismo “ para formas mais radicais. Serão avaliados os anabatistas continentais, os niveladores e cavadores britânicos e o desenvolvimento do movimento operário no protestantismo do século 19.

POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

FONTES :

LUTERO E A LIBERTAÇÃO : WALTER ALTMANN ; ÁTICA e SINODAL
O PENSAMENTO ECONÔMICO E SOCIAL DE CALVINO : ANDRÉ BIÉLER : CASA EDITORA PRESBITERIANA
A IGREJA DA RENASCENÇA E DA REFORMA- DANIEL.ROPS- QUADRANTE.
REVISTA VIVENDO A FÉ- IPI DO BRASIL- CALVINO PARA OS DIAS DE HOJE- VÁRIOS- PENDÃO REAL
HISTÓRIA DO CRISTIANISMO- JONATHAN HILL- EDITORA ROSARI
TEOLOGIA DA ESPERANÇA- J. MOLTMANN- TEOLÓGICA e LOYOLA.

Para se pensar : “ Ao Estado cabe exercer incessantemente o seu papel de cumpridor da justiça, que consiste em proteger e defender os fracos, os oprimidos pelos poderosos, os que não têm proteção social nem quem os proteja. O Estado justo é aquele que não espera ser procurado pelos oprimidos, mas se antecipa em busca da igualdade e do respeito entre as pessoas.”
Citação retirada da lição “ As relações entre a igreja e o estado” da revista Vivendo a Fé, edição 16, intitulada “ Calvino para os dias de Hoje”,
da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e de autoria do Rev. Audenir Almeida Cristófano, do presbitério de Arapongas-PR.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Lado Humano de João Calvino. O Suicídio de Jean Vachat







Esta notícia é um pouco antiga, data de 2007, mas acho que vale a pena reproduzí-la, pois mostra o outro lado do reformador francês João Calvino, tão associado e criticado, com razão, por seu envolvimento no triste episódio da morte do médico espanhol Miguel de Servetus.

Já disse, admiro Calvino, não apenas por ser membro de uma igreja presbiteriana independente, portanto reformada, mas pelo fato de sua vida demonstrar de forma clara a plena contradição da existência humana. Qualquer ser humano, a despeito do caráter, é capaz de cometer um ato nobre seguido de uma atrocidade terrível. Tal premissa não foi diferente em Calvino. Em suma, nutro uma enorme desconfiança para com o ser humano, inclusive comigo mesmo. Agora, chega de papo, vamos à carta.



GENEBRA (AFP)Os protestantes calvinistas com freqüência demonstram uma certa indulgência em relação ao suicídio, como demonstra uma carta do célebre pastor João Calvino exposta no Museu Internacional da Reforma, em Genebra, em pleno coração da chamada Roma protestante.

"Fiz muitas reprimendas (...). Perguntei se não pedia o perdão de Deus pelo que havia feito e se não tinha confiança, sabendo que Ele teria ainda misericóridia", afirma a carta.

Escrita em 1545, após a visita a um moribundo que havia apunhalado a si mesmo no abdome para acabar com seu sofrimento de tuberculoso, o texto, um relatório que Calvino escreveu para a polícia de Genebra, é "raro e inesperado", destaca a diretora do museu, Isabelle Graesslé.

"Eu o exortei com minhas palavras a armar-se de paciência e a consolar-se na graça de Deus", escreveu Calvino.
O documento de Calvino, roubado dos arquivos do Estado de Genebra em meados do século XIX, reapareceu publicamente em 2002 durante um leilão da Sotheby's.
O manuscrito, conservado em perfeito estado, foi comprado por um colecionador e colocado novamente à venda após sua morte.

Em julho, a pedido do Museu da Reforma, um grupo de mecenas adquiriu a carta durante um leilão da Christie's em Londres por 70.000 libras e a doou ao museu.
Apesar da indulgência de Calvino, o caso do suicídio de Jean Vachat, do qual foi testemunha, não teve um final feliz.

Embora Calvino tenha se arrependido em duas ocasiões, o corpo não foi enterrado no túmulo familiar, como havia pedido o pastor, mas ao pé da forca na qual eram executados os condenados à morte.

"Durante muito tempo o suicídio foi considerado um crime triplo, contra o indivíduo, contra a sociedade e contra Deus", explica em um texto de análise Sandra Coram-Mekkey, colaboradora científica nos arquivos do Estado de Genebra.
"Neste sentido, o suicídio envolve a justiça penal", acrescenta.
Então era realizado um julgamento contra o morto ou sobrevivente e a sentença podia ser executada sobre o cadáver.

A clemência de Calvino, assim como outros exemplos similares, tendem a mostrar que o protestantismo era "muito liberal em sua prática de enterro de suicidas", afirma a Enciclopédia do Protestantismo, citada por Coram-Mekkey.
O manuscrito de Calvino, exposto com sua transcrição escrita, apresenta, segundo os diretores do estabelecimento, uma faceta "mais luminosa" do pastor.
"O mostra em seu lado mais humano", completa Isabelle Graesslé.


Copiado do Site Notícias Cristãs. Link Original: http://news.noticiascristas.com/2007/11/carta-em-que-calvino-perdoa-o-suicdio.html#





João Calvino ( 1509-1564)














Pastora Isabelle Graesslé, diretora do Museu Internacional da Reforma em Genebra, Suíça. ( Ao fundo, a famosa cruz huguenote, símbolo do protestantismo francês )

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Igreja, política e a questão gay


Mesmo em período eleitoral, a intenção deste blogue não é fazer campanha política. Quando criei este espaço, tinha como meta divulgar o lado mais arejado do cristianismo, indo na contramão do fundamentalismo tão em voga no mundo cristão, principalmente protestante.

Porém, como cristão reformado, não consigo enxergar a fé cristã sem uma relevância social. Não aceito uma religiosidade presa em quatro paredes. Como dizia Jesus, o cristão deve ser sal e luz. Por favor, não me compreendam mal. Quando digo que a igreja cristã deve influenciar a sociedade, não estou propondo uma teocracia, mesmo que sutil. Pessoas que pautam suas vidas em outras crenças,ou até mesmo em nenhuma, não são obrigadas a viver em um estado cujas leis sejam inspiradas diretamente no conteúdo da Bíblia Sagrada. Atitudes condenadas no livro máximo da tradição judaico-cristã dizem respeito apenas aos seguidores da respectiva linha religiosa. Além do mais, acredito ser uma grande tolice usar a Bíblia, ou qualquer outro livro religioso, como manual de normas ou regras prévias e imutáveis. Karl Barth, teólogo calvinista que gosto bastante, já escreveu :" A Sagrada Escritura recusa-se a ser transformada em código de regras;e é errado usá-la como tal”. Fora esta pertinente ponderação,convenhamos ; o que era bom e ético para um hebreu do V século antes de Cristo não pode ser considerado normativo para um brasileiro do século XXI, por exemplo.

Quando defendo a participação política da igreja, apregôo que a mesma se una com todas as pessoas de boa vontade a despeito das eventuais divergências em matéria de fé. Esta união deve girar em torno de causas favoráveis a justiça e solidariedade.



Vou usar um exemplo concreto e bastante polêmico; a questão da união civil de casais homossexuais. Não tenho a pretensão em convencer nenhum cristão conservador de que esta orientação seja natural. Eu mesmo já fui bastante preconceituoso neste quesito. Agora, você que está perdendo seu tempo lendo esse blog, reflita comigo : é correto uma pessoa que construiu toda uma história de vida ao lado de outra ser preterida de direitos elementares pelo simples fato do seu companheiro ser do mesmo sexo ? Creio que não.

Não quero entrar no mérito teológico a respeito da homossexualidade. Respeito profundamente aqueles irmãos que não concordam com a normatividade da prática homossexual. Porém, tal opinião é de foro pessoal, íntimo. Portanto, meu caro irmão conservador, você não é obrigado a aceitar um pastor abertamente homossexual em sua igreja, mas, se for coerente com os ideais de justiça promulgados pelo evangelho, deve lutar para que todo o cidadão, independentemente de sua orientação sexual, tenha seus direitos basilares respeitados.

Assim, tenho por norma que é fundamental o envolvimento político da igreja. Doravante , este envolvimento não deve ter como base a busca de benefícios para a própria instituição eclesiástica ou a imposição para a sociedade como um todo de valores morais que dizem respeito apenas ao próprio grupo religioso. Tal luta deve buscar justiça para toda a criação, compreendendo todos os seres humanos, sejam heterossexuais, bissexuais, gays ou lésbicas.

POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O " ateísmo " de Dilma. O teísmo de Marina



Dizem por aí que a candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, é atéia. Mineira de Belo Horizonte, é filha de Pedro Rousseff, um imigrante búlgaro que foi filiado ao Partido Comunista de seu país, e de Dilma Jane Silva, professora carioca.

Pedro, o pai de Dilma, provalmente não era uma pessoa religiosa. Afinal, era um comunista das antigas. No entanto, não viu nenhum problema em matricular sua pequena filha em um tradicional colégio metodista da capital mineira, o Isabela Hendrix. Posteriormente, a então adolescente Dilma foi matriculada em um aristocrático estabelecimento católico, o Colégio Nossa Senhora de Sion. Não lembro direito em qual número, mas li uma matéria sobre Dilma na Folha de S.Paulo onde a mesma relatou que ingressou no curso de crisma oferecido pelo educandário católico por vontade própria.

Veio a juventude, e com ela a militância política. Durante o triste período da ditadura militar ingressou no grupo revolucionário COLINA. Não sei nada das prováveis convicções religiosas de Dilma neste período.

Agora, como importante líder do Brasil pós-ditadura, podemos dizer que a postura de Dilma para com a religião é ambivalente. Já declarou ter dúvidas a respeito da existência de Deus, respeitando, contudo, todas as crenças. Recentemente alterou substancialmente essa opinião, declarando-se uma mulher de fé, fiel seguidora do cristianismo católico-romano. Por outro lado, virou figurinha carimbada em cultos das mais variadas igrejas evangélicas, principalmente pentecostais.
Após estas colocações, surge a derradeira pergunta : Dilma é crente ou atéia ? Caso seja crente, sua crença é sincera ou possui motivação política ?

Sinceramente, acho inconcebível uma pessoa ser julgada pelo fato de crer, ou não, em Deus. Este julgamento se torna ainda mais absurdo quando é direcionado a esfera política como critério de elegibilidade de um candidato a um cargo público.Dito isso, pouco me importa se Dilma é atéia ou crente! Para ser digna de meu voto, a candidata do PT deve me convencer por seu passado, sua postura ética e, principalmente, por suas propostas.


Muitos irmãos mais conservadores podem ficar com a orelha em pé, pois é impossível, devido ao forte preconceito, depositar seu voto em uma pessoa deliberadamente atéia. Para esses tomo como empréstimo as palavras de Jesus contidas no Evangelho de São Mateus 15.8 a : “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. Muitos políticos ditos cristãos, reconhecidos por sua ortodoxia doutrinária e prática religiosa piedosa, são verdadeiros hipócritas. De acordo com os dizeres evangélicos não passam de sujos sepulcros caíados, lindos por fora, mas podres por dentro. Querem uma prova desta afirmação ? Vejam a filiação religiosa de boa parte dos deputados envolvidos no Escândalo das Ambulâncias.

Segundo as Escrituras, Deus não está preocupado com uma religiosidade doutrinária ou até mesmo cúltica, mas sim com justiça. Portanto, o governante que agrada a Deus não é aquele que promove reuniões de oração em seu gabinete (ex. George Bush), mas sim aquele que luta pela justiça.

Finalizando este ponto, outra consideração teológica faz-se necessária. De acordo com a tradicional teologia reformada, o ser humano, independentemente de sua crença religiosa, é portador de uma graça comum, sendo capaz de realizar atos benéficos para com o próximo. Desta forma, uma pessoa incrédula possui os mesmos atributos naturais que um crente. Assim, a capacidade para bem governar não esta vinculada a prática religiosa.

Por isso, posso declarar meu voto. Crente ou atéia, meu voto é de Dilma.

O Teísmo de Marina Silva





Admiro a senadora Marina Silva. Seu passado é inspirador, sua vida como política é limpa, sem nenhum tipo de mácula . Além do mais, orgulho-me de tê-la como irmã na fé. Porém, por determinados motivos, não votarei na candidata do PV.

Mas quero abordar outra questão. Assim como Dilma sofre um grande preconceito por parte de alguns cristãos por causa do seu provável ateísmo, Marina sofre o mesmo por parte de vários setores ditos laicos, seculares e ilustrados. Vejo esta postura bastante clara na web. Muitos sites, supostamente portadores de ideais liberais, progressistas e seculares, repelem, violentamente, qualquer ligação com a religiosidade. Para estes meios de comunicação, a religião nunca produziu nada de bom, devendo ser extirpada da face da terra. Como decorrência óbvia desta premissa, qualquer pessoa que assuma de forma convicta suas crenças deve ser sumariamente repelida. Infelizmente, vejo que Marina é vítima deste tipo de pensamento tacanho e mesquinho.

Marina Silva nunca escondeu de ninguém sua condição de evangélica praticante. Participa de cultos, ora em público, realiza trabalhos missionários e etc. Não obstante, nunca deixou transparecer em seus discursos ou atos que, caso eleita, possa implantar uma teocracia protestante em nosso país. Muito pelo contrário, sempre faz questão de realçar que os valores de sua fé não serão impostos goela abaixo ao grosso da população brasileira. Mas para setores do fundamentalismo ateu pouco importa. O simples fato de uma “fanática” subir ao poder é motivo de medo e preocupação. Por fanática, diga-se de passagem, basta assumir sem medo que a religião é algo importante em sua vida.

Triste liberalismo! Pífia tolerância! Estes valores tão basilares para a boa convivência humana só valem para um lado.
Ontem, durante o horário eleitoral que na verdade se parece mais com um programa humorístico, assisti o depoimento de apoio a Marina Silva por parte do ateu Caetano Veloso. Vibrei! Eis aí um cara coerente com sua ideologia libertária.




POR : ANDRÉ TADEU DE OLIVEIRA

A Morte



Sempre que possível,o pastor deveria visitar um cemitério. Seria salutar para ele pessoalmente, para sua pregação, para seu cuidado espiritual e para sua teologia !

Dietrich Bonhoeffer
(1906-1945)

Obs : Sou até mais radical que Bonhoeffer. Acho que todo ser humano, independente da fé professada, deve realizar este tipo de " passeio". Na solidão de necrópole temos a real ciência da nossa finitude como seres humanos. A arrogância fica no chão !





Dietrich Bonhoeffer

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Este blogue apóia



Estabelecer um limite para a propriedade da terra é uma questão de justiça. Entrem no seguinte endereço http://www.limitedaterra.org.br/ , tomem conhecimento do assunto e assinem, conscientemente , este manifesto que propõe a realização de um plebiscito sobre esta pertinente questão.
Fico muito feliz em saber da participação oficial da Igreja Evangélica de Confissão Luterana ( IECLB ) . Quem dera outras denominações cristãs participassem de campanhas realmente relevantes para nossa pátria tão carente de justiça. No entanto, a grande maioria apenas se manifesta em duas ocasiões : quando se trata de defender seus próprios interesses ou quando o foco está direcionado em alguma questão moralista. Uma lástima.
Feita tal ressalva, parabéns, irmãos luteranos !



OBS : Parabéns aos integrantes do Coletivo Quincas Borba do DAMAC-MACKENZIE pela iniciativa em divulgar esta campanha no campus do Mackenzie. Estou no término do curso, mas espero que vocês vençam, novamente, as próximas eleições do diretório !

A Origem e Evolução das Espécies segundo Santo Agostinho



Por : Alister McGrath






O ano de 2009 marcou o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação de seu célebre livro A origem das espécies. Muitos debates acerca da obra do naturalista britânico ganharam corpo. Para inúmeros estudiosos, o darwinismo, baseado na concepção da aleatoriedade do surgimento da vida e em sua capacidade de evoluir, eleva-se da categoria de simples teoria científica para uma verdadeira visão de mundo, uma forma de ver a realidade que exclui Deus permanentemente. Já outros reagem fortemente contra os apologistas do secularismo. O fundamentalismo ateu, eles argumentam, tem usado teorias científicas como armas em sua guerra contra a religião. Eles também temem que as interpretações bíblicas estejam se adaptando às teorias científicas modernas. Certamente, dizem, a Criação narrada em Gênesis deve ser interpretada literalmente, como um relato histórico do que realmente aconteceu. Por outro lado, muitos evangélicos de hoje temem que os modernistas abandonem a longa tradição de uma exegese bíblica fiel. Eles dizem que a Igreja sempre tratou o relato da Criação como uma história clara do surgimento das coisas. Entre os dois extremos, a autoridade das Escrituras parece estar em jogo.


O aniversário de Darwin é um convite a olhar o assunto em perspectiva. Afinal de contas, desde que ele formulou suas teses após a épica viagem a bordo do navio Beagle, muita coisa mudou – no entanto, o evolucionismo continua sendo a tese mais universalmente aceita para explicar o surgimento da vida no planeta. E o relato bíblico da Criação, que durante séculos a fio embasou qualquer estudo acerca do tema, tem sido constantemente posto em xeque não apenas pela modernidade, mas por muitos estudiosos cristãos, que enxergam ali muito mais um compêndio religioso do que uma narrativa confiável. Na história da Igreja, o assunto sempre suscitou controvérsia, e a mera aceitação da literalidade bíblica em relação às origens sempre foi questionada. O teólogo, professor e bispo Agostinho de Hipona (354-430), embora tenha interpretado a Escritura mil anos antes da Revolução Científica, não tinha problemas em relação às controvérsias sobre as origens. O mais marcante em sua trajetória é que ele não comprometeu a interpretação bíblica para acomodá-la às teorias vigentes em seu tempo. Para Agostinho, o mais importante era deixar a Bíblia falar por si mesma.



Há pelo menos quatro pontos nos seus escritos em que tenta desenvolver um relato sistemático de como aquela passagem deve ser entendida – e cada um é sutilmente diferente um do outro. Em O significado literal de Gênesis, comentário escrito durante quatorze anos no início do século 5, Agostinho deixa clara sua crença de que Deus trouxe todas as coisas à existência em um só momento, ainda que a ordem criada não seja estática. Ou seja, o Criador teria dotado as criaturas com capacidade de desenvolvimento, como uma semente, cuja vida está contida em si, mas só se desenvolve e cresce no momento certo. Usando uma linguagem mais técnica, Agostinho incita seus leitores a pensar sobre a ordem criada como algo que contém casualidades divinas ocultas que só emergirão futuramente. É que até aquele momento o bispo não tinha noção de acaso ou de mudanças arbitrárias na obra divina. O desenvolvimento da Criação está sempre sujeito à soberana providência de Deus, que não apenas cria a semente, como direciona o tempo e o lugar do seu crescimento.Agostinho argumenta que o primeiro relato sobre a Criação não pode ser interpretado isoladamente, mas deve ser entendido ao longo da segunda parte, descrita em Gênesis 2.4-25, e também por qualquer outra narração sobre o tema nas Escrituras. Por exemplo, ele sugere que o Salmo 33.6-9 – cujo resumo é “Pois ele falou, e tudo se fez” – menciona a origem instantânea do mundo através da palavra criadora de Deus, enquanto o texto de João 5.17 (onde Jesus diz “meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”) aponta que o Senhor ainda está agindo na Criação. Além disso, ele enfatiza que uma leitura detalhada dos primeiros textos bíblicos aponta que os seis dias da Criação não são períodos cronológicos delimitados, e sim, uma forma de categorizar o trabalho criador de Deus. Em síntese, Agostinho cria que o Senhor criou o mundo em um instante a partir de sua vontade, mas continua a moldá-lo, mesmo hoje em dia.



O bispo de Hipona estava preocupado de que os intérpretes estivessem fechados às novidades cientificas quando liam a Bíblia, fato que gerou conflitos mais de dez séculos depois, quando Copérnico desafiou a crença tradicional de que o Sol é que girava em torno da Terra, e não o contrário. O detalhe é que, em pleno século 16, a Igreja interpretou a teoria heliocêntrica como um desafio para a autoridade da Bíblia. Não era, com certeza, e constituiu-se em mais um desafio para que se interpretasse a Palavra de Deus de maneira mais ampla – uma interpretação com urgente e constante necessidade de revisão. Já no seu tempo, Agostinho preconizava que algumas passagens bíblicas estão abertas para diversas interpretações e não devem se casar com as predominantes teorias científicas. Por outro lado, a Bíblia se torna prisioneira do que um dia foi considerado uma verdade cientifica: em assuntos tão obscuros e distantes da nossa visão, nós encontramos nas Sagradas Escrituras passagens que podem ter várias interpretações sem que a fé que um dia recebemos seja prejudicada.



Essa aproximação de Agostinho fez com que teólogos não caíssem numa visão pré-científica do mundo, e o ajudou a não se comprometer em face das pressões culturais, que eram enormes. Por exemplo, muitos pensadores contemporâneos consideraram incoerente a visão cristã sobre a criação ex nihilo (do nada). Cláudio Galeno, médico do então imperador romano Marco Aurélio, por exemplo, rejeitou isso como uma lógica e metafísica absurda. Agostinho argumenta também que o tempo faz parte da ordem criada. Ou seja, no seu entender Deus criou espaço e tempo juntos, e este último só existe dentro do universo criado. Para alguns, porém, a ideia de que o tempo tenha sido criado parece ridícula.



Novamente aqui, Agostinho se opõe à ideia de que a narrativa bíblica não pode ter interpretações alternativas. Assim, o tempo deve ser visto como uma das criaturas e servos de Deus; por outro lado, a infinidade é uma característica essencial da eternidade. Mas a esta altura surge uma dúvida essencial: então, o que Deus estava fazendo antes da criação do universo? Para o teólogo, o Senhor não trouxe a criação à existência num momento especifico, pois o tempo não existia antes da Criação. Interessante, pois é exatamente esse o estado da existência, o chamado Caos, que muitos cientistas defendem ter havido antes do Big Bang, a gigantesca explosão que, há mais de 13 bilhões de anos, teria dado origem ao universo. Agostinho poderia até estar errado ao afirmar quer a Escritura ensina claramente que a Criação foi instantânea. Os evangélicos creem, apesar de tudo, na infalibilidade da Escritura, não na infalibilidade das interpretações. Como alguns nos lembram, o próprio Agostinho não era constante nas suas convicções acerca das origens. Outras posições certamente existem – por exemplo, a ideia de que os seis dias de Criação, mencionados no Gênesis, foram seis períodos de 24 horas, ou a tese de que eles representam, na verdade, seis extensos períodos, cada um deles com seus milhões de anos. Todavia, a posição de Agostinho nos obriga a refletir sobre essas questões, mesmo que achemos que ele estava errado – e aí está um dos motivos da relevância de seu legado.



Afinal de contas, quais são as implicações dessa antiga interpretação bíblica sobre as afirmações de Darwin? Primeiro, Agostinho não limita os atos de criação à Criação inicial. Deus ainda está, ele insiste, trabalhando com o mundo, direcionando seu continuo desenvolvimento e expandindo seu potencial. Para ele, há dois “momentos” na Criação: aquele primordial e um contínuo processo de direcionamento. Logo, a Criação não é um instante circunscrito ao passado remoto. O Senhor continua trabalhando no presente, ele escreve, sustentando e direcionando o sucessivo desabrochar das gerações. Esse duplo foco sobre a Criação permite ler Gênesis de uma forma que afirma que Deus criou todas as coisas do nada. Porém, isso também nos permite afirmar que o universo foi criado com a capacidade de evoluir, sob a soberana direção de Deus – dessa forma, o primeiro estágio da Criação não corresponde ao que vemos agora.



Para Agostinho, o Senhor criou um universo deliberadamente designado para se desenvolver e evoluir. E o plano para essa evolução não é arbitrário, mas programado na estrutura de tudo quanto foi criado. Os primeiros escritores cristãos tomaram nota de como o primeiro relato do Gênesis falava sobre a terra e a água dando origem à vida. Eles diziam que isso mostra como Deus dotou a ordem natural com a capacidade de gerar criaturas. Agostinho foi ainda mais longe: ele sustentava que Deus criou o mundo com uma série de poderes adormecidos, que são consumados em um certo momento, de acordo com a divina providência. Uma das evidências disso seria o texto de Gênesis 1.12, que sugere que a terra recebeu o poder de produzir vida por si mesma. A imagem da semente, ali mencionada, sugere que a Criação original contém em si mesma o potencial de fazer emergir todos os subsequentes tipos de vida. Isso não significa que Deus criou o mundo incompleto e imperfeito, como pretendia Darwin ao enfatizar a necessidade da evolução; esse processo de desenvolvimento, Agostinho declara, é governado por leis fundamentais, que revelam a vontade do Criador: “Deus estabeleceu leis fixas que governam a produção das espécies de seres, e os tira do esconderijo para serem vistos completamente”, diz em seu comentário.



Por outro lado, enquanto alguns podem entender a Criação como Deus inserindo novos tipos de plantas e animais num mundo já existente, Agostinho considera isso uma incoerência com o resto das Escrituras. Antes, o Senhor deve ser visto como o criador, naquele primeiro momento, da potencialidade de todas as coisas vivas que iriam surgir depois, incluindo a humanidade. Isso significa que o primeiro relato das Sagradas Escrituras descreve o instantâneo surgimento da matéria primitiva, incluindo os recursos para o desenvolvimento futuro. O segundo relato explora como essas possibilidades casuais surgiram e se desenvolveram na terra. Na visão agostiniana, esses dois relatos sobre a Criação revelam que Deus criou o mundo instantaneamente, enquanto imaginava que as outras espécies de vida iriam aparecer gradualmente durante os tempos.



Em posição diametralmente oposta à de Charles Darwin, Agostinho rejeitaria qualquer idéia do desenvolvimento do Universo como um processo aleatório e desprovido de leis. Por isso, ele teria se oposto à visão darwinista de variação casual, insistindo que a providência de Deus está profundamente envolvida no desenvolvimento da vida. O processo pode ser imprevisível; casual, nunca. Previsivelmente, Agostinho aproxima o texto da pressuposição cultural prevalente da fixação das espécies, e não viu nisso algo que desafiasse seu pensamento sobre esse assunto – apesar de a maneira com a qual ele critica as autoridades contemporâneas e de sua própria experiência sugerir que, pelo menos nesse assunto, ele estaria aberto a correções mediante a luz de descobertas cientificas.



O significado literal de Gênesis realmente nos ajuda a lidar com as questões levantadas por Darwin? Vamos deixar claro que a obra de Agostinho não responde esses questionamentos; todavia, nos ajuda a ver que o real problema não é a autoridade bíblica, mas sua interpretação. Além disso, ele oferece uma maneira clássica de pensamento que ilumina muitos debates ainda hoje, quase 1,6 mil anos após sua morte. Nesse assunto, Agostinho nem é liberal nem acomodado; mas totalmente bíblico, tanto no sentido quanto na intenção. Nós precisamos de paciência, generosidade e graça para refletir sobre essas grandes questões. E Agostinho pode nos ajudar a começar.

























Alister McGrath

Retirado da Revista " Cristianismo Hoje ",